13 novembro 2010

relâmpago

a luz de dentro é mais forte que a luz de fora
meus olhos querem ver a luz de dentro
resisto!


carga elétrica de seus olhos
tenho medo
e tal quando era criança
caio no chão após o relâmpago
e ponho as mãos nos ouvidos
para fugir do barulho do trovão


e o coração acelera


a luz é de dentro
minha salvação
ou perdição...

09 novembro 2010

pessoas grandes

as pessoas grandes
são mesmo complicadas
elas cativam pessoas 
e chega o dia em que
simplesmente dizem:
não quero mais a sua amizade
um mundo assim
descartável
é de morte, de dor, de desespero...

08 novembro 2010

despossuído

nu cheguei aqui
nunca tive nada nem terei
posso até me apegar a coisas e pessoas
mas nada será meu

um dia até o amor
aquele que se disse eterno
esvai-se
trai
acaba
some
enterra-se...

02 novembro 2010

UM DIA DE MEMÓRIA

O sol nasceu por trás da serra. Da janela do quarto se podia vê-lo inteiro, feito uma tocha vermelha. O dia nascia assim: intenso e convidativo. Não havia como continuar na cama. Era um dia vivo, desses que a gente diz a si mesmo: como é bom estar vivo!


Levantou. Ainda não muito desperto. Naquela fase entre o sono e o despertar. Espreguiçou-se. Abriu bem os olhos, e diante de si estava uma foto. 
Foto de família. Aproximou-se como se a estivesse vendo pela primeira vez. Como numa cena de filme ou de novela, seu pensamento o transportou para a infância. Estava lá, brincando no grande terreiro de barro vermelho da casa dos avós.

Seus olhos brilhavam e as pupilas nadavam nas lembranças. Viu nas recordações o vovô Zuza. Ele sentado em sua cadeira, olhando o nascente. Fazia isso com frequência, ao final da tarde, quando na frente da casa fazia sombra e o sol declinava do outro lado. Como vovô deve ter sofrido quando teve de deixar aquele espaço sagrado para morar na cidade. Esse sofrimento deve ter apressado sua morte. 

Certamente não havia necessidade da construção daquele açude. Foi projeto de vingança do prefeito insensível à história do povo. A água veio e cobriu tudo das famílias do povoado. Árvores centenárias, entre as quais tantas mangueiras frondosas, e casas antigas. Mais que isso, a água cobriu a memória. Sem memória o povo não tem vida.

Diante da foto, lembrou-se que vovô gostava muito de ler Os sertões, obra que tornou famosa a frase: “O sertanejo é antes de tudo um forte”. É também lá que se narra a destruição de Canudos, povo de esperança, que acreditava no céu já aqui na terra. Os poderosos se encarregaram de construir uma grande barragem para matar a memória de luta e resistência daquela gente.

Voltou das lembranças e se viu de novo no quarto. Olhou para o calendário: dia de finados. Sentiu certo aperto no peito. Mas pensou: “Não é dia de tristeza, é dia de memória pela vida”.

Preparou-se para viver bem o dia. Afinal o amanhecer estava lindo e o céu, de um azul intenso. Alegrava a alma. Prometeu fazer memória da vida dos que já não estão neste mundo e esforçar-se para que os projetos de morte não destruam a memória viva dos pobres. E disse baixinho: “Com a memória a vida vence a morte”. Abriu a porta e saiu para abraçar a vida que se oferecia lá fora.

31 outubro 2010

meu querer

quero as tardes de sábado
aquelas em que o mundo girava
na ponta do pião
pura invenção da mente
criação imaginária de outro mundo
mundo meu
nada verdade
eu não queria a verdade
hoje neste afã pela verdade
eu não quero as tardes de domingo
em que minha cabeça gira feito pião
e meu ser congela em solidão...

25 outubro 2010

vivo

som triste do piano
me acorda do sono tonto
me pulveriza a alma boba
me deixa vivo de novo
pronto para morrer depois
se quero ser os dedos ou o piano
não sei
hoje quero apenas estar vivo...

22 outubro 2010

ausência

a poesia é um modo de tornar a vida suportável
vem
musa minha
volta logo
vem hoje

nesta noite de lume afiado
lua cheia de outubro...

12 outubro 2010

dona cila

vão

ele disse baixinho
quando já era madrugada
e o clarão demorava
eu acho que estou oco
ou quase morto
se eu me encher de graças
ou ressuscitar
eu grito
eu volto...

01 outubro 2010

cortinas

um pouco deste gosto
de tristeza
quando seu olhar
mira o nada
seus lábios disfarçam um sorriso
e seus olhos acenam o não-ser
sinto o cheiro do prazer derramado
e a descarga arrepiando meus ouvidos
a janela de minha alma
quer abrir todas as cortinas...

27 setembro 2010

lama

quero minha alma de volta
ela se foi
e eu fiquei lama...

17 setembro 2010

lume

o lume frio e cortante do espelho
tal uma lâmina afiada
invadiu minha alma
de tão afiada
nem ouvi o corte
apenas senti a dor
dor de ver tudo
e engasgado
não poder dizer nada...

09 setembro 2010

antes de ser

saudades do que nem chegou a ser
do olhar azul
da cor dos olhos de vovó
saudades do que quase foi
dos olhos de cabrita
ou cabrito
não sei
saudades como amêndoas
daqueles olhos que pedem
e escondem uma luz
que poucos percebem
fico aqui por detrás da tela
tela deste outro mundo...



28 agosto 2010

aspersor

deixa o aspersor gotejar
assim como gotejavam
seus olhos
naquela noite de luar
deixa molhar...

24 agosto 2010

recôndito

de lá para cá
minha vida virou

como eu queria
naquela hora fria
ter me despido
e com meu fino terno
coberto seu corpo trêmulo

de lá para cá
minha vida virou
bato no peito
e quantas vezes choro
no silêncio de meu poço...

11 agosto 2010

oferta

foi a você
que entreguei minha existência
me prostrei diante do altar
e num ritual de incensos e lágrimas
disse a palavra do livro

com a voz do coração
pronunciei o juramento
e de lá para cá
minha vida quer ser
configurada na sua

eu já sabia do cálice
e das espessas gotas de suor
de sangue

por isso
todo dia
no altar do meu coração
peço a renoção do entusiasmo
e o gozo da paixão primeira

e na calada da noite
ou no clarão do dia
desejo estar na sua presença

toma minha mão
e que nosso amor
não esfri...

09 agosto 2010

chão de estrelas

quando o sol se escondia
e a noite descia
olhei para o céu
e pedi

deixa que eu pise
o chão de estrelas
e na calada da noite
a brisa me sopre segredos

e quanto aos medos
eu os venço pela fé

deixa que eu pise
o chão de estrelas
com a mesma paz
que eu pisava o chão do sertão

deixa que eu pise
o chão de estrelas
e farei vigília
pela a aurora

quando o sol voltar
eu desço do chão de estrelas
e piso o chão de concreto

mas hoje
deixa que eu pise
o chão de estrelas...

08 agosto 2010

espera

hoje ouvi o canto da sabiá
é prenúncio de bom tempo
Deus queira

mas por enquanto
me deixa aqui no meu canto
quieto
ao som da portugal

deixa que eu madrugue
e quando tudo silenciar
eu tal uma coruja insone
colo os olhos na janela
e sem fechar os olhos
aguardo a luz do novo dia...

07 agosto 2010

só você

estava quase escuro
e por trás do muro
um barulho como que gemido
o gemido era meu medo

me arrepei
e com olhar tímido
aquele olhar carente
de quem pede ajuda
pensei em você

toma minha mão
segura-a suavemente
e me tira deste medo desacompanhado

só você pode me libertar
deste gemido escudido
espremido
desta dor sentida

só você pode derrubar o muro
que me tira a luz
só você pode me devolver a paz

paz perdida
naquel dia
em que meu olhar
encontrou você em meio a multidão

segura minha mão...

05 agosto 2010

existencial

não sei dizer bem o que sinto agora
nem sei mandar embora
o que me alegra e me apovora
paradoxo sou...

29 julho 2010

o totalmente outro

tal um primitivo diante da divindade
eu não consigo olhar nos seus olhos
sua face me estremece
sua voz me paralisa

por outro lado
não suporto sua ausência

vivo entre o assombro e a dependência

é inútil fugir

minhas entranhas pressente seus passos
conto as horas 
não consigo ir embora

fecho e abro os olhos
de repente a garganta engasga
e apenas me entrego...

28 julho 2010

desilusão

nada mais triste
que mendigar amor
nada mais dolorido
que dois olhos carentes
a pedir favor

ninguém merece a dor
mas dela todos temos parte
do nascer ao morrer

amar é padecer...

26 julho 2010

ambulante

entrou no ônibus
sentou na cadeira mais alta
o vento que soprova da janela
era brisa triste

vez e outra
o sol aparecia entre os prédios
e o céu  de um azul intenso
falava de um belo horizonte

lá fora
a tarde dominical
declinava serena e melancólica

o ônibus, porém,
e os passageiros
eram solidão ambulante...

24 julho 2010

hoje

dia lindo em BH
o céu tá limpo, azul
o sol convidativo
o vento sopra em minha janela
e em mim uma vontade de gritar em direção à portugal...

21 julho 2010

20 julho 2010

17 julho 2010

desejo espontâneo

irabrito disse: desejo uma profusão de cores que rebente de todo o lado...

16 julho 2010

sem casa em mim

quis ser livre
mais a liberdade sempre voa
nunca pensou em fortuna
e sempre viveu no aperto
mas nunca à-toa


evitou
o gesto da furtilidade
e a tentação do desmedido


mas tateia o sem sentido
o sem espaço
o sem fundo
no que se chama mundo...

14 julho 2010

escolha

sentado no banco
com a lágrima presa

você chegou

foi quando
libertei a lágrima
ela jorrou

mas a dor
não
ela contiua presa...

10 julho 2010

testamento

enquanto eu vivo for
quero palavras grávidas
quando eu morrer
por favor
nada de discurso estéril...

06 julho 2010

o "céu de suely"

é o sem-destino
é a vontade de ser
e o não-ser
é o não caber dentro da gente mesmo
é a saudade do que nunca foi
é a dor no mais fundo da alma...

04 julho 2010

eira

aprendeu a estufar o peito
a levantar a cabeça
e a enfrentar o medo

aprendeu que a vida não é
um livro aberto
é segredo

aprendeu que a realidade
é também ilusão
e que a razão
é confusa

aprendeu a calar
para humilhar a arrogância

e terminou o dia
sem comer
sem ler
nem correr...

29 junho 2010

fragmento

- oh, fii, cê tirou foto da viagem a são paulo?
- não, tio, eu tava triste. a vó adoeceu...

27 junho 2010

desnudo

do pliar da igreja
olhei como quem foge
procurei o céu
estava azul
tão azul

o céu desnudo
e eu mudo
e surdo

num átimo
não ouvi o padre
não pedi perdão
não elevei glórias
não escutei nada
e nem disse amém...

21 junho 2010

excêntrico

respeito é bom
mas você me marcou no peito
com a cicatriz suspeita

ambos entranhos
entre a lucidez e a cegueira
dentes de leite e de sangue

como objeto qualquer

o pigarro foi a voz da recusa
o nó na garganta
a dor do desprezo

salivei para não vomitar
o gosto de não-ser...

17 junho 2010

vestígio

no dia em que meus olhos
encontraram os seus
o relógio quebou
caiu de cara no azulejo
o ponteiro parou

não resisti tanta beleza
de lá para cá rastejo
seus rastros
seu olhar...

16 junho 2010

descartável

que seja asneira
disse que tinha pena das bananeiras

coitadas
depois de um único cacho
são cortadas
jogadas
largadas
até queimadas

mas quem as corta
geralmente pega nódoa

minha camisa está enodoada...

15 junho 2010

abstração

me prostrei
as fumaças rituais
subiram
chorei
entrei em transe

quando fechei os olhos
me vi saindo da grande sala
não soube dizer adeus
parti sem malas
sem rumo

a senhora da cozinha
perguntou o que havia
baixei os olhos
ela sabia

não olhei pra trás
sumi na rua estreita...

09 junho 2010

dias

na hora em que a terra sumir
dos pés
na hora em que tudo for esquecimento
deslocamento
na hora em que a gente é nu
na multidão
na hora em que a dor aperta
no peito
na hora em que nada parece
ter jeito

na hora
existência...

31 maio 2010

meus olhos

a mangueira que hoje rega as alfaces
são meus olhos...

09 maio 2010

domingo

e mim dava uma saudade
uma agonia assim...

07 maio 2010

raios

seu olhar derrete minha montanha
são dois raios que me partem ao meio
às vezes
fujo de sua presença
para não desfalecer
noutras vezes
corro atrás de você
porque sem sua luz
não sei
não sou
não vivo
não durmo
vagueio qual vira-lata

29 abril 2010

tão perto tão longe

que hoje seja um dia bom
ontem foi tão corrido
peço perdão a lua
preocupado com coisas
não a vi, cheia
hoje, quando levantei
ela estava toda linda
em minha janela...

21 abril 2010

amanheço

quando a lágrima escorre
não é infelicidade

hoje ela escorre
quando amanheço

a música desconhecida
me invade a alma
ocupa todo o espaço

espaço de mim

ela me domina
me penetra

eu a sinto

o choro vem
silencioso e sentido

olho pela janela
e o sol cor de ouro
me diz que estou vivo...

15 abril 2010

anoitecer em mim

a noite é para dentro
é intimidade
saudade do que foi
e do que não chegou a ser

anoitecer em mim
é hora que pede colo
meu coração mole
chora

a noite escura desce
como nuvem espessa
sombra e ventania

meu coração se agita
qual a copa da palmeira
aqui do pátio

olho para o céu
hoje não há estrelas...

12 abril 2010

alto e baixo

daqui

posso ver o céu

limpo, azul

intenso, imenso

ele me faz fugir

fingir

me faz também sentir

sentir que além

da cadeira

da cadeia

da escola

dos conceitos

dos preconceitos

eu posso ser

aquele quase invisível pássaro

que corta o vento

lá em cima

hoje sou apenas

aquele cãozinho perdido

abandonado aqui no pátio

ciscando as primeiras folhas outonais

hoje não quero nada mais...

30 março 2010

olhos de outono

na maca uma senhora
de olhos de outono

o céu estava azul
tão azul que doía
de tão bonito

doía também
ver aquela senhora
ser conduzida na maca
talvez nem volte mais

talvez seus olhos de outono
se paguem...

28 março 2010

no canto

me deixe aqui
no meu canto
deixa eu curtir o pranto

o manto que me cobre
não é nobre

hoje quero a lua
ela pregou na curtina
e me chama pra rua

não posso
eu gosto
mas não posso

hoje não
me deixe aqui
eu e minha solidão...

24 março 2010

fio

esse fio invisível
às vezes
nos une
e noutras vezes
nos separa
fio de mim
fio de ti
fio...

18 março 2010

língua

língua pra lamber
língua pra gostar
língua pra arder
língua pra falar

língua sangue
língua bamba

língua pra enrolar
no canto da boca
língua louca
língua pra amar

língua pra chupar
língua pra calar
língua feito cobra
lambe, dobre

língua salobra
língua doce
língua fel

todas as línguas
em harmonia
ou em babel

LíNgUa...

14 março 2010

anjo chinês

não preciso repetir
que tudo passa
eu sei
você também

vai passar
mas a crueldade é tão grande

...

e a pequena chinesa
jogada no balde

pezinho
pontinha do dedo
apontando no balde

tirada do ventre
jogada no balde

pequeno anjinho chinês
pequeninhos dedinhos
meu choro é por você

é por todos os anjinho
femininos
mortos
nas barrigas femininas
ou antes do primeiro grito

anjinhos
menininhas sem mundo...

10 março 2010

poeira

hoje meu olhar
é de urso panda
não ria das olheiras
não pense que me droguei

a vermelhidão dos olhos
é a poeira invísivel
que me chega como sopro
de você...

06 março 2010

ausência

de todos os roubos
e assaltos
que você me causou
me restou aquela música

ela tem seu cheiro
sua voz
seu hálito de vida

quando a ouço
me banho de beleza
também de tristeza

música que me acalenta
que me atormenta
mata e ressuscita

ela, você e eu
mistério trino...

05 março 2010

sacrifício

tomai e comei
é minha carne
tomai e bebei
é meu sangue...

03 março 2010

ilusão

todo dia
a gente carece
d'um pouquinho de ilusão

gotinhas de ilusão
para viver melhor
ou para viver pior
ilusão

26 fevereiro 2010

capítulo I

antes de nascer foi dado
nasceu rejeitado

o primeiro grito no mundo
o primeiro choro de estranheza
foi ignorado

o primeiro alimento
não foi leite
foi chá
engoliu
mas vomitou

se pudesse teria sumido
corrido
mato adentro

como nao pode
trancou-se
fechou-se
em si...

25 fevereiro 2010

sem colo

passei a tarde de hoje
com a sensação de ter acabado de nascer
e mamãe não queria me amamentar...

21 fevereiro 2010

nas horas cinzas

o que em mim é mistério
somente se revela no cinza
cinza do tempo
quando minha alma dói
e os olhos são dois túneis iluminados
e não mentem

é na hora cinza
que sou o que sou
que me permito
que me deixo
que me abandono
que não conto o tempo
que não tenho passado
futuro
e o presente
não me rouba nada...

09 fevereiro 2010

fragmentos poéticos - irlanda

fotos: meu arquivo pessoal

"viajar é nascer
e morrer a cada instante."
(V. Hugo)

imagens que não se apagam
nas horas frias
acompanhado
ou sozinho
intenso
confesso que vivi...






































07 fevereiro 2010

lapso

eu sou
entre duas noites

aquela antes d'eu existir
e a que virá naquele
meu último dia
neste mundo

14 janeiro 2010

haiti

a palavra cala
me resta um choro
um lamento
uma prece...

12 janeiro 2010

neve

nunca tinha visto neve
hoje vejo um mar todo branco
uma alvura quase muda
minha alma quer gritar...