11 abril 2007

sina

enquanto o sol caía
quis apanhá-lo
teve medo
de se queimar...
depois
estufou o peito
procurou um jeito
para arrumar o fardo
o dia já estava pardo
escureceu...

09 abril 2007

todo

anotou qualquer coisa
dobrou o papel e saiu
antes olhou e sorriu
no portão veio a brisa

piscou para o vento
assim meio louco
deu um grito rouco
agarrou o momento

abraçou o imanente
sentiu-se eterno
no ventre materno
protegido e quente

tudo em torno era vida
de fato sentiu-se gente
esqueceu aquela ferida...


esboço

andou sem rumo
tudo era escuro
coração em apuro
vida sem prumo...

beijou sem gostar
sorriu amarelo
correu sem chinelo
ficou por ficar...

jantou apressado
a sobra do almoço
tudo era insosso
engoliu o bocado...

deitou meio triste
vazio, arrazado
nada de chiste...

08 abril 2007

seis letras em cena

acortina se abre lentamente. Em cada letra um facho de luz avermelhado. As letras entoam o refrão:

paz que emana da justiça
amor vindo do coração
saúde fruto do cuidado
carinho e compaixão
o mundo assim renasce
alegrando a criação...

fundo musical à escolha da equipe diretora. As letras encenam.

o P pensa e faz um pedido: Pai, há fome de pão – na mesa e no coração...
o A atravessa o palco e grita: Além do horizonte renasce um novo tempo, tempo de amor, de amar...
o S solta a voz com força: Salve a aurora do novo dia! Salve a vida que a morte não matou...
o C comunica ironicamente: Cada pessoa, a partir de hoje, não se sentirá sem gosto – chocolate é o sabor...
o O olha de soslaio e brada: O mundo não carece de pena de morte. A vida é a lei.
o A fica no meio do palco e insiste: Além do horizonte renasce um novo tempo, tempo de amor, de amar...

P-A-S-C-O-A ficam de frente para a platéia e dizem a uma só voz:

Feliz Páscoa!

18 março 2007

rima

deve ser bem triste uma vida
na qual não existe rima
quando a poesia falta
tudo em nós desanima
o sol declina sem graça
a gente não capta o clima...

o clima de cada ser
a mudança de estação
a luta de cada um
pra sair da sujeição
do sistema desumano
que fomenta a servidão...

viva a poesia da vida
que nasce da resistência
despontando como o sol
pra aquecer a existência
dos pequenos desde mundo
na fadiga e paciência...

17 março 2007

sinistro

intimamente só
de repente
o demônio através do vidro...

13 março 2007

além

meu terceiro olho
o invisível espreita
este mundo de encantos
mistérios e suspeitas
de medos, de feras, de espantos...

12 março 2007

sem título

hoje meu silêncio não é mudo
e meus pensamentos voam sem asas...

05 março 2007

hora que pede colo

quando o dia cai
e a noite vem
nas tardes dominicais
e dias santos também...
quando o amor vai embora
parte às escondidas
e deixa apenas as horas
numa agonia contida...
quando a gente se despede
vai não sabe pra onde
aquele nó na garganta
e as lágrimas nada respondem...
quando nossas paredes desabam
nossas seguranças deságuam
e o prazer termina em mágua...
quando o coração tá carente
já enjoado da mente...
quando o corpo quer ser todo
não apenas fragmento...