17 outubro 2008

pássaro

Pássaro na gaiola. Sempre inquieto, voando para lá, para cá, e ainda canta. Mas será canto mesmo? Não seria choro? Dizem que é canto. Mas pode ser grito de desespero ou oração de revolta. Talvez cante pela tristeza presente. Talvez reze pela paz roubada. Quem sabe chore pela solidão do amor ausente. Sua música ou choro podem ser formas de esquecer o tempo, fingimento da “dor que deveras sente”.
Seu canto ou choro podem ser lembrança ou saudade de quando voava livremente, rodeado de alegria, cortando nuvens, pegando carona no vento, pousando em frondosas e belas árvores, onde saboreava ricas e fartas iguarias. Era pássaro feliz, no paraíso.
Se é choro ou canto... sabe-se lá. Podem ser os dois ou nenhum. Seu canto-choro é misto de alegria e tristeza. Choro dolorido, angustiado por assistir à perda do sentido da vida, por perceber tantos outros pássaros condenados a uma existência de luta, de sujeição: na escuridão das noites ou nas labutas de sol a sol.
Ali está o pássaro na gaiola, inquieto. Quem o prendeu? Que mal cometeu? Que delito, crime, erro praticou? Foi desejo, paixão, inocência, comodismo ou o quê? Dinheiro, moda, fanatismo? Ódio, ganância, avareza? Ideologia, partido, gangue, quadrilha, tráfico? Droga proibida, droga legal? Qual a pílula? Qual a marca, o rótulo? Quem construiu gaiolas? Quem criou essas prisões de grades invisíveis?
Pássaro pergunta e não encontra resposta. Sabe, porém, que o “mal” tem outros nomes e nem cheira a enxofre. Sabe dos lucros dos bancos, da falência de outros: mercado nervoso. Sabe também que a cotação do dólar é a notícia do dia, a queda das bolsas igualmente. E sabe ainda que o assunto da hora é aquecimento global: culpa de todos e de ninguém. Sabe, sobretudo, que a grana é o que conta. A vantagem chama-se dinheiro, muito. Este, sim, vale mais que qualquer farrapo de pássaro. Por ele se briga e, se preciso, mata-se. E, para completar sua tristeza, sabe que há pouco interesse pelo pássaro na gaiola. Mas ele insiste em ser pássaro. Essa é sua causa. Canta e chora porque a vida é negociada. E o que mais dói é a falsa ideia de progresso que adormece as multidões em prisões invisíveis.