02 novembro 2010

UM DIA DE MEMÓRIA

O sol nasceu por trás da serra. Da janela do quarto se podia vê-lo inteiro, feito uma tocha vermelha. O dia nascia assim: intenso e convidativo. Não havia como continuar na cama. Era um dia vivo, desses que a gente diz a si mesmo: como é bom estar vivo!


Levantou. Ainda não muito desperto. Naquela fase entre o sono e o despertar. Espreguiçou-se. Abriu bem os olhos, e diante de si estava uma foto. 
Foto de família. Aproximou-se como se a estivesse vendo pela primeira vez. Como numa cena de filme ou de novela, seu pensamento o transportou para a infância. Estava lá, brincando no grande terreiro de barro vermelho da casa dos avós.

Seus olhos brilhavam e as pupilas nadavam nas lembranças. Viu nas recordações o vovô Zuza. Ele sentado em sua cadeira, olhando o nascente. Fazia isso com frequência, ao final da tarde, quando na frente da casa fazia sombra e o sol declinava do outro lado. Como vovô deve ter sofrido quando teve de deixar aquele espaço sagrado para morar na cidade. Esse sofrimento deve ter apressado sua morte. 

Certamente não havia necessidade da construção daquele açude. Foi projeto de vingança do prefeito insensível à história do povo. A água veio e cobriu tudo das famílias do povoado. Árvores centenárias, entre as quais tantas mangueiras frondosas, e casas antigas. Mais que isso, a água cobriu a memória. Sem memória o povo não tem vida.

Diante da foto, lembrou-se que vovô gostava muito de ler Os sertões, obra que tornou famosa a frase: “O sertanejo é antes de tudo um forte”. É também lá que se narra a destruição de Canudos, povo de esperança, que acreditava no céu já aqui na terra. Os poderosos se encarregaram de construir uma grande barragem para matar a memória de luta e resistência daquela gente.

Voltou das lembranças e se viu de novo no quarto. Olhou para o calendário: dia de finados. Sentiu certo aperto no peito. Mas pensou: “Não é dia de tristeza, é dia de memória pela vida”.

Preparou-se para viver bem o dia. Afinal o amanhecer estava lindo e o céu, de um azul intenso. Alegrava a alma. Prometeu fazer memória da vida dos que já não estão neste mundo e esforçar-se para que os projetos de morte não destruam a memória viva dos pobres. E disse baixinho: “Com a memória a vida vence a morte”. Abriu a porta e saiu para abraçar a vida que se oferecia lá fora.