07 outubro 2006

DIA SETE

por Ira Brito

Na casa dos vinte
Eu me vi, eu vivi
Na casa dos vinte
Sacudi a poeira, sofri...

Na casa dos vinte
Chorei e parti
Tive amores
Tantas dores...

Na casa dos vinte
Um mundo se abriu
Entrei na brecha
A alegria me sorriu...

Na casa dos vinte
Uma voz me sussurrou:
Ser igual não é normal!
A voz não me enganou...

Abrem-se as portas dos trinta
Um certo aperto na garganta
Uma alegria, um assombro
Mais uma rosa de minha santa...

Mais uma rosa
No rosário da vida
Eu no colo de mamãe
No dia da acolhida...

Era meio-dia
O sol tremendo
Lá no sertão
Mamãe, a parteira
E eu...

A vida é tão rara...

OBRIGADO!!!

30 setembro 2006

SUBJETIVO

por Ira Brito

Um ser sensível
Cheio de necessidade
Às vezes se acha horrível
Uma calamidade...

Jogado no mundo.
Que se vire pra viver
Busque se encontrar
E amenize seu sofrer...

Sim, um ser carente
Histórico e comunitário
Parte de um todo, gente!

Quase sempre estrangeiro
Quando se acostuma, muda-se
É pedaço, é também inteiro...

26 setembro 2006

JACARANDÁ

por Ira Brito

a propósito da observação de meu amigo Valdecir Cordeiro

Perdoe-me, não foi descuido
Te vi feliz a balançar
Teus galhos e tuas flores
São mesmo de admirar
Tu tens a cor da vida
Meu lindo jacarandá...

Te sugo lá da varanda
Desço e toco em ti
Já passei apressado
E às vezes nem te vi
Sim, tive inveja
Daquele colibri...

Tuas flores vulneráveis
Me lembram a finitude
A cor lilás é a alma
Falando de plenitude
Tua beleza me arrasta
Para certa inquietude...

Teu lilás me encanta
Me alegra e me estristece

É um misto sem palavras
Assim como uma prece
É um mergulho em mim
Buscando meu alicerce...

Toda tarde aos teus pés
Há mulheres cansadas
Que voltam do trabalho
Dando altas risadas
Outras ali quietas
Ansiosas, infadadas...

Do ônibus tu és
O ponto de referência
Na avenida presencias
Barulho e imprudência
Vai e vem dos humanos
Suor, desejo, carência...

Obrigado, jacarandá
Tu anunciaste a primavera
Tuas flores avisaram
O início de nova era
Um tempo de renascer
Mandar embora as feras...

24 setembro 2006

BOAS-VINDAS!


por Ira Brito


A cigarra deu seu aviso
Com seu canto estridente
O sol ficou em eclipse
Com aparência de poente
A nuvem não se conteve
E mandou até enchente...

O sabiá deu risadas
O bem-te-vi fez a festa
A passarada toda acesa
Num clima de seresta
Recebeu a primavera
Na cidade e na floresta...

Bem-vinda, PRIMAVERA!

Do equinócio de setembro
Ao solstício de dezembro
Mais uma vez a natureza
Nos presenteia beleza...

23 setembro 2006

NOJO


por Ira Brito


Estou exausto de dossiê
Já não suporto ver tevê
A “senhora dona globo”
Até esqueceu do PCC...

Chega a ser nauseante
Este maldito dossiê
A bruxa ultimamente
Tem o nome de PT
A direita está à caça
Pois sabe que vai perder...

Toda a mídia fala disso
A “dona do destino ataca”
A elite tateia na lama
A hegemonia mete a faca
O povo é bombardeado
Mas este não é babaca...

Veremos no que vai dar
Esperemos sem vacilar
Vamos ler os Alternativos
Mais verbos, menos adjetivos...

Olhemos pra nossa história
Exercitemos nossa memória
Não é bom ficar quietinho
Eles são bem espertinhos...

A política parece uma peste
Mas sem ela não se vive
Há de Haver alguém
Que ainda preste...

E há...

22 setembro 2006

DESNEXO


por Ira Brito

Uns querem perder barriga
Outros ganhar músculos!
Uns correm atrás de briga
Outros amam crepúsculos...

Uns morrem pelas crenças
Outros matam pela fé!
Uns vivem de desavenças
Outros têm cara de mané...

Uns negam qualquer sentido
Outros apenas duvidam
Uns e outros, coagidos...

Uns projetam o futuro
Outros buscam um rumo
Uns e outros, inseguros...

18 setembro 2006

ELA


por Ira Brito

Ela hoje quis um remédio
Que curasse o desamparo
Que aliviasse o tédio
E trouxesse um dia claro

Ela hoje desejou o amor
O amor que nunca teve
Mas por ele se encantou
Num olhar triste e breve

Ela hoje quis ver ninguém
Preferiu solidão, no chão
Desejou ir para o além

Ela hoje não foi nada
Amanhã será outra
Se for vista e amada...

16 setembro 2006

DORES


por Ira Brito

no dia da Mãe das Dores


Dizem que o tempo cura
Por isso, te peço, Deus!
Alivia toda a dor
Deste tempo que não passa
Desta hora sem graça
Dos minutos tristes
Desta mágoa que resiste
No meu peito amargurado
Ferido e tão cansado...


Alivia, Deus, a dor!
A dor mais doída
Da gente sofrida
Que não encontra saída
Pros problemas da vida...

A dor mais doída
De quem não tem pão
Na mesa e no coração
Nem recebe atenção...

A dor mais doída
Do povo da rua
De alma nua
E dignidade roubada
Sem rumo, sem nada.
Com medo
Sem segredo...

A dor mais doída
Das mães lá do morro
Pedindo socorro,
Secando suas lágrimas
Em gemidos e lástimas.
Choram por suas crianças
Que eram as esperanças
Agora estão mortas
Por homens de mentes tortas...

A dor mais doída
Alivia, meu Deus!
A dor de todos que vagueiam
Neste mundo sem amor...


12 setembro 2006

EM SI

por Ira Brito

Na testa uma frase
Na vida uma farsa...

Na estrada um ente
Com a boca sem dentes
Ossos salientes
Olhar ausente...

Na estrada um ser
Em seu padecer
Querendo comer
O pão do viver...

Na estrada um humano
Cabisbaixo, tristonho
Feito cão sem dono...

Na estrada uma pessoa
Parecendo à-toa
Um gemido entoa
Sua vida não é boa...

10 setembro 2006

ESPIRAL

por Ira Brito


O silêncio não pode imperar
Não se pode calar
Quando ainda há força para gritar

Se há choro e ranger de dentes
E o medo apavora a gente
Não é culpa só do presidente
Se há grandes que dominam
E pequenos de triste sina
Não é culpa divina.
Não se pode fingir
Tampouco mentir
Ou dos problemas fugir.
Nem sempre
Quem cala consente...