20 março 2009

latifúndio

os maridos partem
e elas ficam rodeadas de filhos
de precisão e saudade

eles não vão para o mar
vão para a selva dos homens

lá são explorados
e feitos pior que bichos
pelo latifúndio

do gato é a primeira unhada
o sangue cai na terra

o que um dia foi homem
perde o nome

morre indigente
deita na terra fria
sem caixão
nem reza

porão
não aqueles
dos navios negreiros

a dor é a mesma
escravidão...




19 março 2009

girassóis

fotos:
antonio iraildo













18 março 2009

impar

não tenho idade
o tempo não é meu
não tenho cidade
minha morada sou eu

estrangeiro desde o primeiro grito
minha estética é do feio e do bonito
se o belo me arrepia e dá prazer
outra faceta me arranha e faz sofrer

minha frase não quer ponto final
sigo em pedacinhos, em meu dial...

17 março 2009

índice

sensação do nada
de saber coisa alguma
de presença nenhuma
voz de ninguém
vácuo de não saber
horas de não-ser

12 março 2009

língua

há dias que bastaria
a ponta do dedo molhada
para refrescar a língua...

11 março 2009

arremedo

desce cortando
amargando
é a água e o pó
dissolvido
bezerro de ouro...

10 março 2009

vespertino

quis sorrir para o sol
quando ele descia
e deixava a terra
escura
não sei porque
não consegui
fiquei foi
pensativo...

08 março 2009

07 março 2009

dois raios

os olhos me fascinam
todos eles
cores, formatos, luzes, sombras
principamente os mistérios

fico à caça deles por onde passo
mas me vigiando
pra não ser repreendido
há olhares que não suportam outros

hoje, no ônibus
duas tochas me relampejaram
e eu sem para-raios
ainda bem...

06 março 2009

tufão

aporético, hipotético
hoje estou elétrico
aferroado
moscardo, arraia-elétrica
desejando parir ideias
mas envolto em um mundo
mundo das aparências
conflitante com o supra-sensível
pensamento ou barriga de vento
socrático...