a tarde cai fria
o sol de sábado
entra pela janela em duas réstias
como dois olhos me mirando
ouço a rádio com dial de outro mundo
e a terra em mim girando
no peito pulsações acres
o céu azul se despede
e dói em mim
é a saudade do que nem chegou a ser
em breve a noite chega
e as paredes do quarto
serão a única companhia
os dedos que rastejam agora nestas letras
procuram se agarrar no fiapo de sentido
preencher o espaço ressentido...
21 maio 2011
18 maio 2011
vulcano
meus olhos ardem
de fome
a alma também
o azul do alto
está vazio
nenhum sinal lá no céu
até a lua cheia da manhã escondeu-se detrás da nuvem
aqui embaixo a abelha não encontrou néctar pro seu mel...
06 maio 2011
punção
há dias em que a gente quer tocar o céu
lá onde o azul ou o cinza nos levam
é quando sentimos que não cabemos dentro de nós mesmos
aí gostaríamos de conseguir uma passagem para lugar nenhum
ou o lugar mais distante
ocorre que não há como ir
feito pássaro engaiolado olhamos pelas frechas das grades
por vezes, grades invisíveis
batemos as asas e depois nos acalmamos
e com olhar de quem pede alguma coisa
de quem pede compaixão
ou tão-somente pede um taco de carinho...
então curvamos o bico
engolimos as migalhas jogadas
e com a saliva que nos resta
pigarreamos a angústia...
lá onde o azul ou o cinza nos levam
é quando sentimos que não cabemos dentro de nós mesmos
aí gostaríamos de conseguir uma passagem para lugar nenhum
ou o lugar mais distante
ocorre que não há como ir
feito pássaro engaiolado olhamos pelas frechas das grades
por vezes, grades invisíveis
batemos as asas e depois nos acalmamos
e com olhar de quem pede alguma coisa
de quem pede compaixão
ou tão-somente pede um taco de carinho...
então curvamos o bico
engolimos as migalhas jogadas
e com a saliva que nos resta
pigarreamos a angústia...
04 maio 2011
pirilampo
eu estava totalmente dentro de mim
quando sua voz chegou aos meus ouvidos
foi como o vento aracati
soprando nas noites quentes do sertão
me arrepiei
e a quentura desceu cabeça aos pés
quis me benzer
mas senti ser um espírito bom
me aquietei feito ovelha mansa
foi feitiço
eu sei...
quando sua voz chegou aos meus ouvidos
foi como o vento aracati
soprando nas noites quentes do sertão
me arrepiei
e a quentura desceu cabeça aos pés
quis me benzer
mas senti ser um espírito bom
me aquietei feito ovelha mansa
foi feitiço
eu sei...
28 abril 2011
êxodo
o anjo exterminador passou
e sangrou os portais dos escolhidos
no meio da noite muitos gemidos
ouviu-se também gritos e choros
era a multidão dos perdidos
“mulher, por que choras?”
o jardim estava sem flores
revelando espaço de dores
não era o éden, era a falta
era o vazio profundo
no afã de salvação
toquei o anjo luminoso
“não me retenhas!”
abri os olhos
ouvi vozes inefáveis
depois gritei desesperado
ressuscita-me!
ouvi apenas o eco de minha voz
levantei e olhei a rua pela janela
estava tudo igual...
22 abril 2011
cruz
os dedos em persignação
tocam a fronte e o peito
em gesto perfeito
na rua
o humano prostrado
depois terra nua
engolido pela angústia crua
pode ser fome
sede, desprezo ou droga
não tem nome
nem igreja, nem sinagoga
tem cor, tem sujeira e dor
nunca foi visto, nem quisto
os colegas de cheiro
o chamam de cristo...
tocam a fronte e o peito
em gesto perfeito
na rua
o humano prostrado
depois terra nua
engolido pela angústia crua
pode ser fome
sede, desprezo ou droga
não tem nome
nem igreja, nem sinagoga
tem cor, tem sujeira e dor
nunca foi visto, nem quisto
os colegas de cheiro
o chamam de cristo...
21 abril 2011
19 abril 2011
meditação
ele chora
quando um amigo vai embora
tem brilho no olhar
porque em tudo sabe amar
ele é poderoso
porque tem o poder do amor
e não o amor ao poder
tem os pés feridos
e se deixa beijar por pecadora
e sente nas entranhas
todas as dores humanas
todas as dores humanas
do alto da cruz
abraça a humanidade
sangue e água empapam a terra
um grito ecoa no vazio da dor
angústia e não desespero
por que me abandonaste...?
10 abril 2011
04 abril 2011
invenção
não me cobre coerência
meu verso não é conceito
digo o que sinto no peito
sem grito na consciência
invento a realidade
adentro outra existência
dou espaço à reticência
meu time é a simplicidade
não me cobre coerência...
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