29 maio 2011

cálido

sentia o cheiro e o gosto do amor
ainda vivo na boca

no espelho
um olho vermelho
e a alma oca
garganta rouca
razão louca

o desejo sem beijo
o amor líquido pelo ralo
vassalagem do tempo

não há vírgula, nem ponto
sem momento pra guardar
apenas o chiado do chicote invisível no ar
e a consciência sem brecha pra escapar...

23 maio 2011

segunda

a mão tenta segurar a dor
suavente acaricia a testa
o cérebro balança
as pálpebras se irritam
e os olhos resistem
no horizonte telas dos mundos
real e virtual

21 maio 2011

orifício

a tarde cai fria
o sol de sábado
entra pela janela em duas réstias
como dois olhos me mirando
ouço a rádio com dial de outro mundo
e a terra em mim girando


no peito pulsações acres
o céu azul se despede
e dói em mim
é a saudade do que nem chegou a ser


em breve a noite chega
e as paredes do quarto
serão a única companhia


os dedos que rastejam agora nestas letras
procuram se agarrar no fiapo de sentido
preencher o espaço ressentido...

18 maio 2011

vulcano

meus olhos ardem
de fome
a alma também

o azul do alto
está vazio
nenhum sinal lá no céu

até a lua cheia da manhã escondeu-se detrás da nuvem
aqui embaixo a abelha não encontrou néctar pro seu mel...


06 maio 2011

punção

há dias em que a gente quer tocar o céu
lá onde o azul ou o cinza nos levam
é quando sentimos que não cabemos dentro de nós mesmos
aí gostaríamos de conseguir uma passagem para lugar nenhum
ou o lugar mais distante
ocorre que não há como ir


feito pássaro engaiolado olhamos pelas frechas das grades
por vezes, grades invisíveis
batemos as asas e depois nos acalmamos
e com olhar de quem pede alguma coisa
de quem pede compaixão
ou tão-somente pede um taco de carinho...


então curvamos o bico
engolimos as migalhas jogadas
e com a saliva que nos resta
pigarreamos a angústia...

04 maio 2011

pirilampo

eu estava totalmente dentro de mim
quando sua voz chegou aos meus ouvidos
foi como o vento aracati 
soprando nas noites quentes do sertão
me arrepiei
e a quentura desceu cabeça aos pés
quis me benzer
mas senti ser um espírito bom
me aquietei feito ovelha mansa
foi feitiço
eu sei...

28 abril 2011

êxodo

o anjo exterminador passou
e sangrou os portais dos escolhidos
no meio da noite muitos gemidos
ouviu-se também gritos e choros
era a multidão dos perdidos

“mulher, por que choras?”

o jardim estava sem flores
revelando espaço de dores
não era o éden, era a falta
era o vazio profundo

no afã de salvação
toquei o anjo luminoso

“não me retenhas!”

abri os olhos
ouvi vozes inefáveis
depois gritei desesperado
ressuscita-me!

ouvi apenas o eco de minha voz
levantei e olhei a rua pela janela
estava tudo igual...

22 abril 2011

cruz

os dedos em persignação  
tocam a fronte e o peito
em gesto perfeito


na rua
o humano prostrado
depois terra nua
engolido pela angústia crua


pode ser fome
sede, desprezo ou droga
não tem nome
nem igreja, nem sinagoga


tem cor, tem sujeira e dor
nunca foi visto, nem quisto
os colegas de cheiro
o chamam de cristo...

19 abril 2011

meditação

ele chora
quando um amigo vai embora
tem brilho no olhar
porque em tudo sabe amar
ele é poderoso
porque tem o poder do amor 
e não o amor ao poder
tem os pés feridos
e se deixa beijar por pecadora
e sente nas entranhas
todas as dores humanas
do alto da cruz
abraça a humanidade
sangue e água empapam a terra
um grito ecoa no vazio da dor
angústia e não desespero
por que me abandonaste...?