28 outubro 2012

simples

não esperava a carta trazida pelo mar
dentro de uma garrafa
nem desejava o alcance da girafa
esperava que o celular tocasse
e ouvir nada mais além de um "oi"
esperava abrir o e-mail e ler "meu querido
o simples lhe deixava embevecido
tocava-lhe a alma
era-lhe acessível...
então abriu o livro

e viajou num mundo sensível
pousou livre, suave e solto
mundo seu
a imaginação lhe deixava todo absolto
o mundo sua casa...

27 outubro 2012

verso

quando tudo se liquefaz
ali a voz presa na goela
a noite desce fundo
na cara os olhos pedindo janela
janela da alma ou janela da casa
tuda vaza, segredos e medos
o tum-tum-tum pulsa e treme
o coração fora do peito 
no vácuo o vento range ou geme
e o pensamento peita a razão

em voo liberto
a voz ressoa
"faça-se a luz"
a saudade acordou
foi quando o anjo sorriu
e o verso se partiu
verso é intermédio
quando não, remédio...

26 outubro 2012

gentileza

não tinha nada
nem ninguém
bolso sempre sem
tinha quase tudo:
liberdade interior
vontade de beleza
nenhuma certeza
farelinhos de amor
vez e quando...
foi-se um dia
é sempre lembrado
por sua gentileza e alegria...

25 outubro 2012

sangria

toda água de represa
anseia pela sangria
o vigia deseja sempre
a aurora do novo dia
a tristeza não tem vez
se no interior há alegria....

20 outubro 2012

inundação

entre arames farpados
ali não lhe cabia
a alma árida
lá fora a liberdade corria
livre, livre, livre
não desistiu de amar
então a ternura se fez
deixou-se inundar....

17 outubro 2012

paz

quando de si quase se perdia
ofegante o morro subia
ao encontro do silêncio
aquele de mosteiro
e a alma em arrepio

gemia quieta
sede, fome, desejos
poço sem fundo
rio perene rumo ao profundo
então as vozes ecoavam
o coração ardia forte
o peito em coral
amém, amém, amém...

13 outubro 2012

olhar

de repente
um olhar soflagrante
num átimo, razoável comum
de uma cor sem nome
destituído de qualquer sinal de amor

não havia tempo, espaço
meio lama, meio aço
olhar de fome
nenhuma abertura
os olhos, nossos donos...

11 outubro 2012

vira-lata

a paz é o Jupi lá de casa
deita no meio da estrada
nem teme pontapé
sol já alto
abre um olho
espia o mundo
ressona
a paz é vira-lata...

10 outubro 2012

força

uma lâmina fina de suor frio banhou-lhe a testa
murmurou uma reza sem nome enquanto o estômago dava voltas
quis abraçar a si, carne trêmula e fraca
ajoelha 
e feito mulher de Atenas
fustigada não chora...

09 outubro 2012

colo

sentia-se arredio
não havia nada de novo debaixo do céu
lá no meio da coluna, certo arrepio
tipo o frio que queima
e o gosto da ausência feito pigarro
teima, teima, teima
não é fumaça, nem cigarro
fez que engolia
lembrou-se dos soluços engolidos
tantas vezes

agora feito água parada
disse para si em voz alta:
não se engole melancolia
foi quando tudo desceu ralo abaixo
não sentiu alegria
a água porém acalmou os poros
e lá no íntimo se ouvia algo canoro...