18 março 2006

POÇO...

Por Ira Brito

A solidão é só minha
Esta que sinto agora
Tu podes até me ver
Mas só do lado de fora
Se entrasses neste poço
Irias logo embora...

26 fevereiro 2006

A DOR DE CADA UM...

Por Ira Brito

A correria da vida
Na luta cotidiana
Há muita coisa insana
Que em nós causa ferida
E gera uma dor doída
Em nossa rápida existência
Forçando-nos penitência
De sofrer sem entender
O porque do padecer
Neste mundo sem clemência...

13 fevereiro 2006

MOTE

Por Ira Brito
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Numa vida de abundância
Sem se importar com a pobreza...
***************

Há muita gente orgulhosa
Que nem olha para baixo
De tudo faz cambalacho
Numa vida melindrosa
E tem mania dengosa
Mas faz tudo por esperteza
Sempre em busca de grandeza
Saciando sua ganância
Numa vida de abundância
Sem se importar co' a pobreza...

09 janeiro 2006

CHAGA

Chaguinha tem seis filhas, uma fila de anjinhos. Teve um filho homem, mas esse morreu. “Deus não quis que eu tivesse filho homi e levou ele.” Já apanhou do marido e por isso sente dores na coluna. “Ainda hoje sinto dor no espinhaço por causa que ele me bateu.” Outras mulheres passam pelo mesmo drama de Chaguinha. O silêncio é a lei. O álcool é quase sempre a causa de tal violência. “Eles acham que estão sempre certos e são os mió”. Chaguinha é do sertão do Ceará. Ela sorrir e fala alto.

13 dezembro 2005

FELIZ NATAL!!

Por Ira Brito

Há um clima diferente
Quando chega o Natal
Nuvens leves anunciam
Que é momento especial
Quem nasce traz alegria
E esperança sem igual...


A esperança é criança
Filha legítima do amor
Vem preencher o vazio
Mandar embora a dor
Da humanidade ferida
Que vive a peste, o terror...


Mas a esperança não cai
De pára-quedas na terra
Ela vem em carne e osso
Combater o que é guerra
Traz a mensagem de paz
E a miséria desterra...


Há também algo triste
Meio sem explicação
As melodias surradas
Ainda provocam emoção
Os pisca-piscas aceleram
O pulsar do coração...


Tudo em volta é correria
O tempo é tão fugaz!
A vida treme na esquina
Todos querem beber paz
Os anúncios contagiam
Com seu apelo sagaz...


As vitrines vendem sonhos
Os letreiros nos seduzem
O colorido arde os olhos
Comerciais nos induzem
O ruge-ruge nos shoppings
Ao frenesi nos conduzem...

É também tempo de adeus
Chega a hora de partir
A saudade dói no peito
Sem ter pena de ferir
Ela deságua lá dentro
No propósito do devir...


Carinhoso abraço, a você!

01 dezembro 2005

VIDA

Por Ira Brito

A vida que pulsa em nós
Ama, chora, rir e canta
O sopro dentro de nós
Arrepia, fere e espanta
O mistério é véu escuro
Mas é ele que encanta...


O que seria da vida
Se tudo fosse o que é
Se só houvesse o reto
Mar calmo sem maré
Se o sol nascesse cinza
Não restasse crença ou fé...

A vida precisa de encanto
Vencer a dor de morrer
Há sim como resistir
As artimanhas do poder
Ou a poesia nos salva
Ou vamos todos perecer...

22 novembro 2005

DESPEDIDA...

Por Ira Brito

Um aceno triste
É hora da despedida
O peito padece
Aquela dor ressentida
Uma lágrima quente
Escorre na cara sofrida...

Os olhos molhados
Querem se esconder
Os dentes se apertam
Em ponto de ranger
A língua se enrola
A garganta quer doer...

A gente sabe que vai
Mas voltar não é certeza
O mistério desta vida
Pode até causar tristeza
A vida é feita de adeus
Não pára, é correnteza...

06 novembro 2005

SÍNDROME

Por Ira Brito

Deve ser triste ser triste
Nascer para ser estranho
Andar sem rumo na vida
Ovelha fora do rebanho
Ser sozinho no mundo
Num desencanto medonho...

Sabe lá o que é ter sede
Sentida em frente ao mar
Ficar pertinho de alguém
E não ter chance de amar
Falar e não ser ouvido
E o prazer ter que comprar...

A angústia ressentida
Alimentada com dor
Um sentimento abafado
Na ausência do Amor
Tudo de ponta-cabeça
Vida, nojo, fobia, horror...

...

26 outubro 2005

MEDO

Ira Brito

A rua deveria ser o espaço da liberdade. Mas nem sempre é. Se observarmos como as pessoas andam na rua, vemos que todos caminham como se fugissem de algo ou de alguém. Há corre-corre. Multidão que se toca e não se sente. Todos se olham e não se vêm. Estranhos.
Não, ninguém quer dizer que andemos por ai cumprimentado todo mundo. Bom seria se assim fosse. No interior ainda é possível fazer isso. Na cidade grande
o medo nos aterroriza. Temos medo de assalto, de seqüestros, da violência. Tudo pode ser suspeita. Alguma coisa nos aprisiona. E a rua, que deveria ser o espaço público da liberdade, transforma-se em ambiente refém do medo. É triste ter de passar para o outro lado da rua, temendo que o semelhante seja uma ameaça. Às vezes, pode ser o vizinho que mora no mesmo prédio, mas ninguém trocou sequer uma palavra. Por isso a estranheza.
A rua precisa ser o espaço do encontro. Aquele encontro, ainda que passageiro, no entanto, cordial. Por exemplo, um bom-dia, um aperto de mão, um aceno. Essas pequenas coisas que podem nos tornar mais humanos. Sim, mais humanos. Por que os tempos pós-modernos querem nos transformar em pequenas super-poderosas-máquinas. Somos sentimentos. Se não atentarmos para isso podemos nos transformar em seres vazios. E não fomos criados para o vazio, mas para felicidade completa.

20 outubro 2005

COLCHA DE RETALHOS

Por Ira Brito

O questionamento é
Onde mora o amor?
A resposta não é fácil
Impõe busca e rigor
A vida em fragmentos
Tecida em meio à dor...

O esforço de cada um
Por sua "cara metade"
É um caminhar difícil
Tesouro de felicidade
Gera delícia e dor
Sufoco e dificuldade...

É a dinâmica do amor
Algo tão misterioso
Juntar cada retalho
Num esforço grandioso
Está pronto pra recomeçar
Em cada ato teimoso...

O desafio nessa busca
É ir além da metade
Mergulhar o corpo todo
Sem temer profundidade
Enfrentar os desafios
Nas asas da liberdade...

A história de cada um
É feita de fragmentos
Os retalhos são pedaços
Dos corações sedentos
As cores revelam algo
D’alma e dos sentimentos...


Se alguém é aqui da terra
O outro é lá do mar
Os extremos se abraçam
E se apaixonam no olhar
Os corpos se tocam suaves
No encantamento de amar...

É certo que no amor
Há também a traição
Mas não compete julgar
De ninguém a tal ação
A carência às vezes força
A agir sem a razão...

Mesmo estando juntos
Há o medo da partida
Brigas sem cabimentos
Numa angustia ressentida
Solidão acompanhada
Alma triste e ferida...


A vida é um espetáculo
Cada um é um ator
Pode ser também palhaço
E fingir que sente dor
Ou mesmo rir sem graça
Numa situação de horror...

No aprendizado da vida
É bom juntar os pedaços
Se o "sapato aperta o pé"
É só folgar os cadarços
Mas se "bater com a cara"
Tem que curtir os inchaços...

É por isso que a crise
É como um vendaval
Ela nos joga no chão
E nos faz sair do normal
Nos força provar do fel
E cair do pedestal...


Se houver "morangos quentes"
Graúdos e saborosos
Vermelhinhos bem saudáveis
Empinados e gostosos
Pode suscitar tentação
E minutos grandiosos...

Encontrar a alma gêmea
Exige transformação
Libertar-se das amarras
Do rancor do coração
Comunicar o afeto
E oferecer o perdão...

Reconstruir a vida
Com a antítese do corvo
Cobrir-se com a colcha
Gerando um mundo novo
Para sua própria história
E para ninguém ser estorvo...


Quando se encontra a meta
A colcha é finalizada
Dorme-se sono tranqüilo
Não existe hora errada
A experiência é rainha
O horizonte é estrada...