26 fevereiro 2008

mofumbo

não havia banheiro
a salvação era a moita
aquela de mofumbo
tava tão fraco
não podia descer a grota
agarrou-se nos cipós
e a luz dos olhos
qual bateria da tevê em preto e branco
começou a secar
levado pela mãe e pela irmã
acordou ouvindo choro
e o ruido dos próprios ouvidos
morrer não é difícil

24 fevereiro 2008

louvação

dois olhos pra ver
nariz pra cheirar
língua pra desgustar
cabeça pra ser
dedos pra tocar
lábios pra beijar
boca pra comer
pés pra andar
braços pra abraçar
corpo pro prazer
coração pra amar
ouvidos pra ouvir
silenciar e calar
é tão bom viver

19 fevereiro 2008

artista

nasci cheirando
a barro e sangue
e outros cheiros
o massapé porém
terra fértil
e escura
exalava mais
em mim
mamãe artista
oleira, louceira
seus dedos moldavam
penelas, potes, alguidares
lembro das pedrinhas
lisas que ela colhia
do riacho
para alisar
sua criação
quantas vezes
acariciou minha face
pedrinhas lisas
mãos de mamãe

18 fevereiro 2008

desenredo

o vento soprou quente
fez o sinal da cruz
sabe lá se não é
espírito mal
depois de benzer-se
olhou o céu e viu a lua
bem lá dentro
nitidamente avistou
são jorge e o dragão
tal e qual aquele
do quadro na parede
lembrou de quando
era criança
infância inocente
mamãe quem mora na lua?
são jorge, meu fii
ele sozinho, mamãe?
não, ele e um dragão
de repente viu
um rio de sangue
a lança do santo
acertou o pescoço
da fera

14 fevereiro 2008

miragem

sugou o amargo
da noite insone
no espelho
na testa
um nome
sem sobrenome
trancou a angústia
travou as palavras
trincou os dentes
degustou o gosto
de ser só
de ser margem
miragem
lá fora
o sol
era dia
de viver

13 fevereiro 2008

tadinho

hoje tenho nada
pra dizer não
que saco é
querer entender
entendo nada não
tou cheio
dos que entendem
ou que têm respostas
que o verbo
socorra
senão

08 fevereiro 2008

pedra

um corpo
uma rocha pronta
ladeira acima
a voz de comando
é preencher o vazio
sorrir irônico
pros infernos
a pedra que leva
ao topo
e retorna
ao chão
é o nada
que o faz
tudo

imprevisto

que jogo
esqueceu que sou assim
continou aquele que chora
debaixo dos plátanos
mas que já perdeu
muitos fios de cabelos

05 fevereiro 2008

abissal

enquanto os ricaços
enchem suas banheiras aquecidas
para suas orgias e bacanais
nosso chuveirinho verte gotinhas
e ainda somos obrigados
a diminuir
o tempo do banho

01 fevereiro 2008

carquilhas

ela falou
se cuida, você já está carequinha
isso pode significar tanta coisa
o tempo, sempre ele
gostei do que disse meu sobrinho
ah, se o tempo fosse como dvd
mas não é
o que foi
já era
e uma amiga que resolveu parar de sorrir
imagina
ela disse que pela primeira vez
viu-se no espelho
rugada
assombou-se
culpou os depois dos 30
ai