14 novembro 2008

sede de ver

sai por aí
com sede de ver
vi olhos sedentos
querendo viver

vi olhos dengosos, manhosos
vi olhos de cabrita, aflita
vi olhos pidões, dois corações
vi olhos ruidos, perdidos, doídos

vi olhos de várias cores, dores, amores
vi olhos ligeiros, certeiros, trigueiros
vi olhos de urubu, inhambu, capitu

vi olhos da cor da noite, açoite
vi olhos da cor do mar, amar
vi olhos da cor da terra, encerra

ah, quis entrar em cada olhar
mas todos fogem, dormem...

12 novembro 2008

antes de partir

daqui há dez anos, não!
a vida é hoje, é agora
nada de passar pelo mundo
com a sensação de estar fora
carpe diem, carpe diem
antes de irmos embora...

11 novembro 2008

11.11

dia cinza
nuvens densas
finitude é o sentimento
a palavra cala
a rima fácil não fala
e o texto não emana
a morte se fez
marcos partiu...

06 novembro 2008

prece

oh deus dos desgraçados
dos famintos de pão e de beleza
dos que mendigam amor
por lascívia, precisão ou favor
deus dos que vivem sem certeza
angustiados, ameaçados, em fragmentos
manda um anjo acalmar os tormentos
dos corpos emperdinidos, feridos, apodrecidos
oh deus de todos os credos
até dos ateus
temos medos
ainda há um vale de lágrimas
de lástimas
humanos rastejam
farejam sedentos
detrás de muros, entulhos
embrulhos e lonas
oh, deus
ouvi a prece muda...

05 novembro 2008

visada

a juventude branca
deste pedaço do sul
desfila com tênis caros
debaixo do céu azul
entre duas araucárias
está o sol todo nu...

04 novembro 2008

intimação

se a vida ameaçada for
regras quebrarei
leis transgridirei
o preceito é o amor

02 novembro 2008

memória

Diz-se que certa vez
perguntaram a um famoso poeta
qual frase gostaria que fosse escrita em sua lápide,
ao que ele respondeu:
“Quero que seja escrito: ‘Não estou aqui’”.
O poeta era ateu.
A morte constitui um dos maiores mistérios que nos envolvem.
Ela nos comove e, muitas vezes, nos põe à prova.
Quando criança, a primeira vez que fui a um velório fiquei assustado:
não com a falecida, já idosa, de cujo rosto ainda guardo a lembrança,
mas com os lamentos e prantos dos adultos diante do caixão.
A impressão que ficou foi que a vida daquela senhora terminava ali,
com a morte.
O desespero dos parentes parecia revelar o sentimento de perda para sempre.
Não havia, pelo visto, nenhuma possibilidade de esperança.
A sensação era de tragédia.
É certo que a partida faz chorar.
Aquele que verdadeiramente cultiva os sentimentos sente a dor da ausência,
sobretudo dos próximos e de quem mais ama.
É certo que não há mal em chorar a separação das pessoas queridas.
No entanto, neste dia de memória,
em vez de pensarmos na tragicidade da morte,
poderíamos refletir sobre o que nos falta fazer
para que ninguém seja privado do direito de viver bem no tempo presente.
E, quando chegar nossa hora, saberemos que nosso destino não é a tumba.
“Não estou aqui.”

01 novembro 2008

falange

da sacada olhou o horizonte
um barulho estranho ecoou
era tal um rugir de elefante
que enchia o silêncio de horror

na verdade o grito era interno
lá no poço onde a água é a dor
a rebelião dos demônios no inferno
reinando na ausência do amor...

31 outubro 2008

um nome

somos os pobres
fugimos da fome
batemos na porta
queremos um nome
já não suportamos
a dor no abdome

só queremos um nome...

arbusto

escrevo para viver
escapo na poesia
a dor que levo no peito
espanto com a luz do dia
a aurora, mãe do sol
me traz paz e alegria...