mostrou o rosto do amor
e não foi só palavras
foi corpo de carne
toque, olhar, cumplicidade
não fugiu na crise, nem da dor
soube olhar além das aparências
sentiu o sopro, o hálito da vida
respiração com respiração
fez-se uma mesma alma
acessou a parte mais íntima
o lugar mais sagrado
e sempre recordou a palavra dada...
07 junho 2011
06 junho 2011
bicadas e beijos
Alguns pombos vêm frequentemente ao quintal e costumam aterrissar próximo ao canil do Fedro, o cachorro da casa. Eles gostam de comer as sobras da ração do cão pastor. Vez e outra o Fedro avança com gana de despenar um deles. As aves, no entanto, se afastam e voltam quando têm chance de bicar migalhas. Para além das revoadas e das tentativas do cão de capturá-las, dia desses chamou-me à atenção um gesto de carícia entre dois pombos, no telhado. As bicadas não pareciam de brigas. Pareciam beijos. E beijo apaixonados. Havia certa reciprocidade entre ambos. Percebiam-se até certo arrepio nas penas quando das leves bicadas, bico no bico e o sobe e desce de cabeças, num movimento frenético. Dava a impressão de um convencimento para algo a mais...
02 junho 2011
sensação
a alegria é remédio
seja qual for o intermédio
mas o dia tinha um sinal nas nuvens
nada era zen na atmosfera
tirou o celular do bolso
e sentiu uma dorzinha no osso
espinha dorsal onde a alma navega
falou pra si mesmo que não se entrega
vagou o olhar por um instante sem tempo
ligo mais tarde, pensou
o anjo tocou a trombeta
minha intuição não me engana, constatou
a alegria vai atrasar um pouquinho
seguiu pelo caminho de todo dia....
seja qual for o intermédio
mas o dia tinha um sinal nas nuvens
nada era zen na atmosfera
tirou o celular do bolso
e sentiu uma dorzinha no osso
espinha dorsal onde a alma navega
falou pra si mesmo que não se entrega
vagou o olhar por um instante sem tempo
ligo mais tarde, pensou
o anjo tocou a trombeta
minha intuição não me engana, constatou
a alegria vai atrasar um pouquinho
seguiu pelo caminho de todo dia....
30 maio 2011
indelével
uma marca indelével grudou em mim
foi quando a fumaça do sacrifício ascendeu
então caí por terra e prostrei-me aos pés do eterno
algo em mim nasceu e morreu
houve contraste entre a rede e o terno
o ritual me transportou, me mudou
entreguei-me
ao voltar à objetividade
vi que o amor de minha vida tremia
sua pele tão linda, macia, mamãe
morena qual iracema
seus olhos de amêndoas
diziam que nada entendiam
ou entendiam tudo
teria sido overdose de emoção?
naquele dia temi perder o amor que me gerou
doravante
penso no que um amigo falou
- o que você escreve precisa de aviso prévio...
29 maio 2011
cálido
sentia o cheiro e o gosto do amor
ainda vivo na boca
no espelho
um olho vermelho
e a alma oca
garganta rouca
razão louca
o desejo sem beijo
o amor líquido pelo ralo
vassalagem do tempo
não há vírgula, nem ponto
sem momento pra guardar
apenas o chiado do chicote invisível no ar
e a consciência sem brecha pra escapar...
23 maio 2011
segunda
a mão tenta segurar a dor
suavente acaricia a testa
o cérebro balança
as pálpebras se irritam
e os olhos resistem
no horizonte telas dos mundos
real e virtual
21 maio 2011
orifício
a tarde cai fria
o sol de sábado
entra pela janela em duas réstias
como dois olhos me mirando
ouço a rádio com dial de outro mundo
e a terra em mim girando
no peito pulsações acres
o céu azul se despede
e dói em mim
é a saudade do que nem chegou a ser
em breve a noite chega
e as paredes do quarto
serão a única companhia
os dedos que rastejam agora nestas letras
procuram se agarrar no fiapo de sentido
preencher o espaço ressentido...
o sol de sábado
entra pela janela em duas réstias
como dois olhos me mirando
ouço a rádio com dial de outro mundo
e a terra em mim girando
no peito pulsações acres
o céu azul se despede
e dói em mim
é a saudade do que nem chegou a ser
em breve a noite chega
e as paredes do quarto
serão a única companhia
os dedos que rastejam agora nestas letras
procuram se agarrar no fiapo de sentido
preencher o espaço ressentido...
18 maio 2011
vulcano
meus olhos ardem
de fome
a alma também
o azul do alto
está vazio
nenhum sinal lá no céu
até a lua cheia da manhã escondeu-se detrás da nuvem
aqui embaixo a abelha não encontrou néctar pro seu mel...
06 maio 2011
punção
há dias em que a gente quer tocar o céu
lá onde o azul ou o cinza nos levam
é quando sentimos que não cabemos dentro de nós mesmos
aí gostaríamos de conseguir uma passagem para lugar nenhum
ou o lugar mais distante
ocorre que não há como ir
feito pássaro engaiolado olhamos pelas frechas das grades
por vezes, grades invisíveis
batemos as asas e depois nos acalmamos
e com olhar de quem pede alguma coisa
de quem pede compaixão
ou tão-somente pede um taco de carinho...
então curvamos o bico
engolimos as migalhas jogadas
e com a saliva que nos resta
pigarreamos a angústia...
lá onde o azul ou o cinza nos levam
é quando sentimos que não cabemos dentro de nós mesmos
aí gostaríamos de conseguir uma passagem para lugar nenhum
ou o lugar mais distante
ocorre que não há como ir
feito pássaro engaiolado olhamos pelas frechas das grades
por vezes, grades invisíveis
batemos as asas e depois nos acalmamos
e com olhar de quem pede alguma coisa
de quem pede compaixão
ou tão-somente pede um taco de carinho...
então curvamos o bico
engolimos as migalhas jogadas
e com a saliva que nos resta
pigarreamos a angústia...
04 maio 2011
pirilampo
eu estava totalmente dentro de mim
quando sua voz chegou aos meus ouvidos
foi como o vento aracati
soprando nas noites quentes do sertão
me arrepiei
e a quentura desceu cabeça aos pés
quis me benzer
mas senti ser um espírito bom
me aquietei feito ovelha mansa
foi feitiço
eu sei...
quando sua voz chegou aos meus ouvidos
foi como o vento aracati
soprando nas noites quentes do sertão
me arrepiei
e a quentura desceu cabeça aos pés
quis me benzer
mas senti ser um espírito bom
me aquietei feito ovelha mansa
foi feitiço
eu sei...
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