23 janeiro 2012

artigo A

a nódoa invisível
somente eu a toco
a sinto
não imprimível
ela fica lá onde somente eu adentro
a lágrima presa e densa
a vela sem mesa
a folha de papel acesa
e a tela branca faminta...


28 novembro 2011

barco

se aqui choro ou rio
se grito ou silencio
ou me faço tagarela
se contemplo da janela
o infinito fora de mim
é que digo não e sim
misturo tudo sem pureza
me deságuo na lâmina fria
espelho meu em correnteza
não sou científico, sou letra viva
texto anônimo, sem paga autoral
sou a penitência a espera da absolvição
sou verso livre, noutra preso nalguma rima
rica ou pobre
tateio na extinção
nos olhos, paixão
sentimento no coração
se naufragar a barca da salvação
há de me resgatar...


19 novembro 2011

rio

há necessidade de ouvir
o que não é dito
 há olhares e expressões límpidas
 buscando o escondido
jovens ou velhos querendo água de beber
existência que se escorre
rio do viver...

17 novembro 2011

em três tempos

o ser e o gosto do céu na boca
alto e amplo em sua degustabilidade
ambíguo ser mistura-se ao inferno
pigarro, garganta roca
complexo e plural
é purgatório ou vontade de amor...

13 novembro 2011

além do tempo

ouviu o barulho na porta
talvez o vento, ninguém 
o tic-tac hora morta
trazia saudade de alguém


no peito sentimento deserto
lá fora a avenida acordou
aqui dentro sou eu que desperto
do sono ainda zonzo estou


o espelho é imagem torta
nos olhos pureza de infância
na face a idade riscou
rugas, caminhos, distância


a imagem não sou eu, falou
voz vinda de fora
voz rouca, voz morta


a água lavou
abri a cortina
dia azul acordou
sai, sem medo da sina...

03 novembro 2011

tecido

sabe do gosto salobro
de se dar em dobro
de ser feito de bobo
sabe do prazo cumprido
do tempo perdido
e mais do que isso
sabe do sentido
do choro engolido
da saliva retida
do nó na garganta
da hora manca
e do tempo perdido
sabe de algumas coisas
e desconfia de tantas
caras fingidas de santas
sabe do rio
deflui
nas curvas
da vida
em fios...

26 outubro 2011

ausência

quando você partiu
a noite em mim caiu
fiquei sem chão


a sombra densa
desceu sem fios
e a ofensa muda
me deu calafrios


nada nas mãos
eu todo vazio


na garganta o nó
e no peito dó
do sol sem adeus


então abracei os dedos meus
trinquei os dentes nos seus
e me fiz de ausente


de lá para cá
tenho noites looongas
me falta o sono...

18 outubro 2011

reza das oito

feito Bartimeu
filho de Timeu
fico aqui nas margens
não calo, grito
me mandam calar
não calo
tem compaixão de mim
quero ver novamente...

15 outubro 2011

retrato na janela

bem na hora em que a solidão é companheira
você me visita
olha pelo vidro da janela
faz cara de carente
sonolento, cochila


contemplo
como um retrato
uma pintura


mastigo o pão
que alguém amassou
e você some...

07 outubro 2011

nascer outubro

Aquela quinta-feira seria apenas um dia a mais. Mesma rotina de suor, cansaço. Sem tempo para repouso. Seria mais um dia besta, sem graça, insosso. Mas ela sabia que algo diferente se daria naquele dia de outubro. Seu corpo comunicava isso.

Levantou cedinho, de madrugada. Barriga pelas goelas. Ascendeu a lamparina que soltou faíscas de fogo e bolinhas de carvão. Começou a luta. Queria deixar tudo arrumadinho. Preparou café, chá. A meninada tinha que tomar chá para não adoecer. Ainda em jejum todos ingeriam o chazinho feito com tanto carinho. Os pés de mato no terreiro de casa não tinham sossego. A sabedoria de mãe intuía quais ervas preveniam de vermes, gripes e outros males.

Tempos difíceis aqueles. Seca e precisão imperavam. Este menino vai nascer logo agora. Ah, tem nada não. Deus dá um jeito. A produção de louça precisa ser dobrada. Este resguardo vai tomar muito tempo. Nossa senhora do Bom Parto me ajude.

Mamãe preparou o barro e trabalhou no seu ofício de louceira (oleira não fazia parte do seu vocabulário) até quando pode. Fez panelas, pratos, pãozeiras, quartinhas, alguidares...
O sol subia feito uma bola de fogo. O suor banhava sua face. Mamãe é linda. A dor tornava-se insuportável. Dor de parto.
Antonio vai chamar a parteira. Espalha os meninos aí pela vizinhança. Corre. Esse menino vai nascer e não demora.
Sem gritos, nem alaridos. Sofrendo, concentrada, ali está mamãe a me esperar. Mãe Chiquinha, a parteira, a mãe solidária que pegou a todos nós, encontra-se ali com mamãe. Dando força, apoio, instrução. Acompanhando o parto. Cortou meu cordão umbilical.
Nasci naquele dia claro de céu azul e horizonte trêmulo. Meio-dia. Sol quente, tremendo à vista. Nasci cheirando a barro. Massapé. Sangue e vida. Achei o mundo feio. Senti dor e medo. Alarmei bem alto. Me consolei no peito de mamãe. Fui enrolado em cueiros de muitos usos. Bem surrados. Já utilizados por meus irmãos e irmãs. Tínhamos tudo em comum. Estavam tão limpinhos aqueles panos. Quentinhos. Engomados a ferro de brasa. Deitou-me numa rede pequenina, armada num cantinho do quarto de meus pais.
Não fui nenhuma surpresa. Lá em casa nascia um ou uma quase todo ano. No entanto, todos estavam felizes com minha chegada. Todos queriam me ver. A vizinhança não parava de entrar no quarto. Estava tão quente ali. Tempo abafado. Nossa, é a cara do cumpadi Toim. Mais feliz estava mamãe. Meu filho nasceu bem. Graças a Deus! 
Mamãe me quis.