11 fevereiro 2007

ÍMPETO


a palavra engasgada
o silêncio inquieto
os lhos em tochas
a cabeça em vulcão

lá dentro uma chama
logo, logo a erupção...

04 fevereiro 2007

GOLE


O dia ainda nem clareou. Está com sede.
Com a mão trêmula agarra o copo
Enquanto o leva até a boca, o líquido todo balança
Balança mas não perde uma gota, lambe os lábios
Faz uma careta, mostrando a gengiva sem dentes
Os olhos rasos d’água querem falar de dor
Não tem mais ninguém em sua vida
O sentido de tudo evaporou
Um gole, dois goles, goles grandes
A vista turva vislumbra outro mundo
Assim esquece a dureza do seu existir
Segue num andar largo
O sol treme e seu peito dói
Todo o seu ser é dor e angustia....

26 janeiro 2007

VÉSPERAS


- Tii, seus olhos estão cheios de lágrimas.
- É que peguei muito sol hoje, fia.
- ...

29 dezembro 2006

NUVEM


por Ira Brito


- Tio, o que é aquilo preto no céu?
- É uma nuvem, fii.
- E por que ela tá preta?
- É porque tá cheia d'água.
- É Deus quem tranca a água lá?
- É, sim... é Deus...
- Se eu fosse Deus eu não trancava a água lá em cima. Eu fazia era soltar água todo dia da nuvem...

16 dezembro 2006

CAPUCHO


Por Ira Brito

Da flor nascerá
o capucho de algodão...
Vagueia pensamento
Pode alimentar ilusão
Vai lá onde o existir é nada
Passeia no vale das almas apenadas
Conversa com os seres sedentos
Que não pesam na balança da lei
Na lei dos que só pensam no bolso
No seu próprio bolso...
Vagueia pensamento
Na vida maldita dos que hoje são lixo...
Lixo podre e ambulante, volante...
Vagueia ondulante qual montanha
Qual estômago em náusea
Vagueia na orla, na margem do existir
Corre veloz, não em fuga...
Ali há um ser com pulga
Não pense que seja cão
É um ser que um dia teve razão...
Inhaca, insuportável inhaca
Não, não é gambá
Era só o que faltava
Gambá urbana...

13 dezembro 2006

ABSURDO

por Ira Brito

Se aquilo era sobre mim?
Se sou humano, sim!
Se é absurdo? Que seja.
Você nunca teve brotoeja?

Acho que teve
E deve ter sofrido
Deve ter fingido a dor
E até se desfarçado
Em um vencedor...

Aquela dor é minha
Porque é de alguém
Sim, é minha também.
E não é coisa do além...

Se eu sou pagão?
Algum pedaço
Em mim deve ser.
É que, às vezes,
Sou um absurdo
Para não ser mudo
À dor do mundo...

Não precisa entender
Nem tente isso.
E se tentar
Cuidado com o susto...

10 dezembro 2006

PERDIDO


Por Ira Brito

Amar dói
dói tanto
Amar amarga
Amar humilha
Amar faz rastejar
Amor não correspondido
Faz chorar....

A gente quer colo
Quer desabafar
Quer fugir
Quer ar para aliviar...

A gente não quer sofrer
Mas não tem jeito
Nada é perfeito
Ainda bem!
Mas dói tanto no peito...

Palavras,

Eu te degusto
Deságuo em ti
Choro em pranto
No meu canto
Sozinho, no banco...

Procuro me agarrar
Nada alcanço
Nem descanço
Não há ponto
Só reticência
Sem ciência...

Cada lágrima
Em seu sabor de sal
Escorre e deságua
Em meu poço universal...

Poço que me parte
Poço que me une
Poço que me pune
Poço....

Amar é perder-se
É demorar
Para se achar...

06 dezembro 2006

ATÉ MAIS


por Ira Brito

ao amigo Moisés

Há quem prefira adeus
Eu prefiro um até mais
Ou um até logo

Não há jamais...

Despedida... não gosto
É ferida, doída...


Mas meu amigo vai embora
Vai para casa. Agora


Aceno...

Vai, meu amigo!
Siga em paz
Conte comigo...


Valeu a partilha
Valeu a amizade
Valeu esta vida
Em comunidade...


Você vai
Você fica
Você leva

Você deixa...

Nas estradas da vida
Ah, estas estradas...
A gente vai se encontrar
Nas estrofes livres ou rimadas...


Palavras... Você sabe
Elas, às vezes, são dispensáveis...


Um abraço, amigo...

01 dezembro 2006

1º DE DEZEMBRO





por Ira Brito


Pelos que têm o HIV
Para que não se desesperem,
Não percam a vontade de viver,
Cultivem a esperança,
Saibam com a doença conviver.
Não se sintam os piores do mundo
Nem fique pensando em morrer.
Não se culpem, mas se cuidem,
Não aumente o padecer.
E as famílias compreendam,
Saibam carinho oferecer,
Pois o apoio e o cuidado
Mandam embora o sofrer
Por mais que o fardo seja pesado
Com união é mais fácil vencer...

25 novembro 2006

DICUMÊ

por Ira Brito

A noite,
antes de adormecer,
sentado na rede,
rezava: "meu Deus,
que eu não tenha sonho ruim.
Ajuda que amanhã papai e mamãe
consigam dicumê pra nós."