11 junho 2008

noturno

acorda em meio a noite
ofegante
é um verso
mendicante
nasce na escuridão
de repente
são estrofes
rimadas ou não
são vivas

06 junho 2008

escuro

a face colada ao travesseiro
pele quente
cabeça a mil
os olhos fechados
procuram o sentido
nas travessias escuras
do castelo interior
há temor

26 maio 2008

delírio

sentiu a pequenez
no ninho, o endez
olhou pro céu, imenso
deitou na grama, tenso
viu nuvens finas, leves
pensamentos breves
fechou os olhos pra ver mais
alma só, pede paz
virou fios no ar
gota de lágrima
pra lavar a dor
de ser

24 maio 2008

imenso

a taça, a praça
não, nada em comum
a sala, a mala
sim, era adeus
nó na garganta

uma vala
a porta se abriu
o ventou entrou
você sumiu
acabou

22 maio 2008

canudos

vítimas do embelezamento
da limpeza social
são expulsos pela polícia
empurrados para bem longe
está em jogo o capital
as lágrimas das mães
mistruram-se à neblina fria
cortante
nazistas em ação
holocaustos em questão
cotidianamente
na alemanha, não
aqui
contra judeu, não
contra pobres
a constituição é só papel
não, é também digital
direito humano é para poucos
pobre nunca deu ibope
dá voto

21 maio 2008

maio

folhas voando
arrastando-se
o tempo, o vento
outono

17 maio 2008

a estrela poente

d'alva parecia cair
soprada pela brisa do aracati
no coração dos dois
o mesmo sentir
não havia como mentir
a lua foi testemunha
do devir

ovo

no meio do caminho
havia um ovo
branquinho e jogado
de galinha da angola
de capote
tão frágil e forte
paradoxo da vida
por pouco seria pisoteado
pegou-o cuidadosamente
entre as mãos
liso e frio e ainda quente
o ovo, a vida e nós
são tantos nós

11 maio 2008

fado

com a palavra engasgada
lingua presa e nó na garganta
implora o direito ao grito
mas gritar pra quê pra quem
se ouvidos são surdos
e o mundo é um vácou