11 abril 2009

páscoa

"por que essa noite
é diferente das outras noites?"

feliz páscoa!

10 abril 2009

paixão

"Vir dolorum", de Hans Memling

09 abril 2009

ceia

comida e bebida
ritual de partilha

despedida

o amor é pão
ainda que em nacos
farelos, cacos

o amor é líquido
vinho e sangue
nas veias
última ceia

o amor é lavar
os pés dos outros
o amor é só amar...

08 abril 2009

coroa de espinhos

coro cabeludo
sangrias abertas
carne viva

nos presídios
olhos apagados
corpos fragelados

corpos nus
escarnecidos
servidos em gotas...

07 abril 2009

flagelação

chicotes invisíveis
sangue coagulado
bofetada no abdome
grito

na dor da mãe
pelo filho que partiu
antes do crepúsculo

no choro das crianças
dos morros e do asfalto
sem brinquedo
nem afago

na angústia humana
que tem muitos nomes
mas é uma dor só...

06 abril 2009

horto

o suor era sangue
angustia e dor
o amargor do cálice
consequência do amor

a morte viria
o corpo tremia

quanta agonia

na noite escura
a captura
e um beijo falso
do traidor...

04 abril 2009

desvario

e se secar a saliva
não houve mata nativa
se o oxigênio acabar
e a luz se apagar
a escuridão descer
todo mundo se perder

se a garganta der um nó
o nariz encher de pó
se houver ranger de dentes
os corpos assim doentes

e se toda a casa cair
o mundo inteiro sumir

seja lá o que for
ódio ou amor
haja lá o que houver
ação boa ou de má-fé

só uns punhados de terra
nossa luta aqui encerra...

29 março 2009

quimera

era uma vez uma aldeia
onde reinava a poesia
todos lá vivam em paz
Todos lá tinham alegria
todos lá eram poetas
fosse noite, fosse dia...

as brigas que lá haviam
eram somente as pelejas
dos poetas repentistas
nas cantorias sertanejas

as disputa verbais
duravam noites inteiras
toda gente bem feliz
ria com as brincadeiras
dos poetas repentistas
e suas rimas certeiras

naquele aldeia
a lei era a voz ao vivo

nos lábios de todos
havia sempre sorriso
e a riqueza maior
era dizer versos de improviso...

28 março 2009

ensejo

naquele tempo inocente
quando não carecia de esperteza
tinha um mundo a minha frente
e uma grande luz acesa

hoje cheio de dúvidas
preocupado com a razão
todo dia em pesadas lidas
sinto vazio o coração

se o homem foi condenado
à faculdade do pensar
tornou-se também abobado
e por aí vive a vagar...

27 março 2009

nas horas

nas horas em que o silêncio
não quer ser mais silêncio
nas horas em que a prudência
quer mais é ser louca
nas horas em que o corpo
pede paciência
nas horas é que a voz
se faz de rouca
nas horas em que a noite
é toda escura
nas horas em que os dedos
tateiam afagos
nas horas em que os olhos
se fecham pelo desejo
nas horas em que o peito
é casca de cigarra
nas horas em que a garganta
é só pigarro
nas horas em que o abraço
não devia acabar
nas horas em que a pessoa
sai da foto
nas horas em que a foto
faz chorar
nas horas em que a lágrima
quer ser rio
nas horas em que lembrar
causa arrepio
nas horas em que viver
é pura alegria
nas horas em que o sorriso
salva o dia...