17 junho 2010

vestígio

no dia em que meus olhos
encontraram os seus
o relógio quebou
caiu de cara no azulejo
o ponteiro parou

não resisti tanta beleza
de lá para cá rastejo
seus rastros
seu olhar...

16 junho 2010

descartável

que seja asneira
disse que tinha pena das bananeiras

coitadas
depois de um único cacho
são cortadas
jogadas
largadas
até queimadas

mas quem as corta
geralmente pega nódoa

minha camisa está enodoada...

15 junho 2010

abstração

me prostrei
as fumaças rituais
subiram
chorei
entrei em transe

quando fechei os olhos
me vi saindo da grande sala
não soube dizer adeus
parti sem malas
sem rumo

a senhora da cozinha
perguntou o que havia
baixei os olhos
ela sabia

não olhei pra trás
sumi na rua estreita...

09 junho 2010

dias

na hora em que a terra sumir
dos pés
na hora em que tudo for esquecimento
deslocamento
na hora em que a gente é nu
na multidão
na hora em que a dor aperta
no peito
na hora em que nada parece
ter jeito

na hora
existência...

31 maio 2010

meus olhos

a mangueira que hoje rega as alfaces
são meus olhos...

09 maio 2010

domingo

e mim dava uma saudade
uma agonia assim...

07 maio 2010

raios

seu olhar derrete minha montanha
são dois raios que me partem ao meio
às vezes
fujo de sua presença
para não desfalecer
noutras vezes
corro atrás de você
porque sem sua luz
não sei
não sou
não vivo
não durmo
vagueio qual vira-lata

29 abril 2010

tão perto tão longe

que hoje seja um dia bom
ontem foi tão corrido
peço perdão a lua
preocupado com coisas
não a vi, cheia
hoje, quando levantei
ela estava toda linda
em minha janela...

21 abril 2010

amanheço

quando a lágrima escorre
não é infelicidade

hoje ela escorre
quando amanheço

a música desconhecida
me invade a alma
ocupa todo o espaço

espaço de mim

ela me domina
me penetra

eu a sinto

o choro vem
silencioso e sentido

olho pela janela
e o sol cor de ouro
me diz que estou vivo...

15 abril 2010

anoitecer em mim

a noite é para dentro
é intimidade
saudade do que foi
e do que não chegou a ser

anoitecer em mim
é hora que pede colo
meu coração mole
chora

a noite escura desce
como nuvem espessa
sombra e ventania

meu coração se agita
qual a copa da palmeira
aqui do pátio

olho para o céu
hoje não há estrelas...