01 outubro 2010

cortinas

um pouco deste gosto
de tristeza
quando seu olhar
mira o nada
seus lábios disfarçam um sorriso
e seus olhos acenam o não-ser
sinto o cheiro do prazer derramado
e a descarga arrepiando meus ouvidos
a janela de minha alma
quer abrir todas as cortinas...

27 setembro 2010

lama

quero minha alma de volta
ela se foi
e eu fiquei lama...

17 setembro 2010

lume

o lume frio e cortante do espelho
tal uma lâmina afiada
invadiu minha alma
de tão afiada
nem ouvi o corte
apenas senti a dor
dor de ver tudo
e engasgado
não poder dizer nada...

09 setembro 2010

antes de ser

saudades do que nem chegou a ser
do olhar azul
da cor dos olhos de vovó
saudades do que quase foi
dos olhos de cabrita
ou cabrito
não sei
saudades como amêndoas
daqueles olhos que pedem
e escondem uma luz
que poucos percebem
fico aqui por detrás da tela
tela deste outro mundo...



28 agosto 2010

aspersor

deixa o aspersor gotejar
assim como gotejavam
seus olhos
naquela noite de luar
deixa molhar...

24 agosto 2010

recôndito

de lá para cá
minha vida virou

como eu queria
naquela hora fria
ter me despido
e com meu fino terno
coberto seu corpo trêmulo

de lá para cá
minha vida virou
bato no peito
e quantas vezes choro
no silêncio de meu poço...

11 agosto 2010

oferta

foi a você
que entreguei minha existência
me prostrei diante do altar
e num ritual de incensos e lágrimas
disse a palavra do livro

com a voz do coração
pronunciei o juramento
e de lá para cá
minha vida quer ser
configurada na sua

eu já sabia do cálice
e das espessas gotas de suor
de sangue

por isso
todo dia
no altar do meu coração
peço a renoção do entusiasmo
e o gozo da paixão primeira

e na calada da noite
ou no clarão do dia
desejo estar na sua presença

toma minha mão
e que nosso amor
não esfri...

09 agosto 2010

chão de estrelas

quando o sol se escondia
e a noite descia
olhei para o céu
e pedi

deixa que eu pise
o chão de estrelas
e na calada da noite
a brisa me sopre segredos

e quanto aos medos
eu os venço pela fé

deixa que eu pise
o chão de estrelas
com a mesma paz
que eu pisava o chão do sertão

deixa que eu pise
o chão de estrelas
e farei vigília
pela a aurora

quando o sol voltar
eu desço do chão de estrelas
e piso o chão de concreto

mas hoje
deixa que eu pise
o chão de estrelas...

08 agosto 2010

espera

hoje ouvi o canto da sabiá
é prenúncio de bom tempo
Deus queira

mas por enquanto
me deixa aqui no meu canto
quieto
ao som da portugal

deixa que eu madrugue
e quando tudo silenciar
eu tal uma coruja insone
colo os olhos na janela
e sem fechar os olhos
aguardo a luz do novo dia...

07 agosto 2010

só você

estava quase escuro
e por trás do muro
um barulho como que gemido
o gemido era meu medo

me arrepei
e com olhar tímido
aquele olhar carente
de quem pede ajuda
pensei em você

toma minha mão
segura-a suavemente
e me tira deste medo desacompanhado

só você pode me libertar
deste gemido escudido
espremido
desta dor sentida

só você pode derrubar o muro
que me tira a luz
só você pode me devolver a paz

paz perdida
naquel dia
em que meu olhar
encontrou você em meio a multidão

segura minha mão...