15 outubro 2011

retrato na janela

bem na hora em que a solidão é companheira
você me visita
olha pelo vidro da janela
faz cara de carente
sonolento, cochila


contemplo
como um retrato
uma pintura


mastigo o pão
que alguém amassou
e você some...

07 outubro 2011

nascer outubro

Aquela quinta-feira seria apenas um dia a mais. Mesma rotina de suor, cansaço. Sem tempo para repouso. Seria mais um dia besta, sem graça, insosso. Mas ela sabia que algo diferente se daria naquele dia de outubro. Seu corpo comunicava isso.

Levantou cedinho, de madrugada. Barriga pelas goelas. Ascendeu a lamparina que soltou faíscas de fogo e bolinhas de carvão. Começou a luta. Queria deixar tudo arrumadinho. Preparou café, chá. A meninada tinha que tomar chá para não adoecer. Ainda em jejum todos ingeriam o chazinho feito com tanto carinho. Os pés de mato no terreiro de casa não tinham sossego. A sabedoria de mãe intuía quais ervas preveniam de vermes, gripes e outros males.

Tempos difíceis aqueles. Seca e precisão imperavam. Este menino vai nascer logo agora. Ah, tem nada não. Deus dá um jeito. A produção de louça precisa ser dobrada. Este resguardo vai tomar muito tempo. Nossa senhora do Bom Parto me ajude.

Mamãe preparou o barro e trabalhou no seu ofício de louceira (oleira não fazia parte do seu vocabulário) até quando pode. Fez panelas, pratos, pãozeiras, quartinhas, alguidares...
O sol subia feito uma bola de fogo. O suor banhava sua face. Mamãe é linda. A dor tornava-se insuportável. Dor de parto.
Antonio vai chamar a parteira. Espalha os meninos aí pela vizinhança. Corre. Esse menino vai nascer e não demora.
Sem gritos, nem alaridos. Sofrendo, concentrada, ali está mamãe a me esperar. Mãe Chiquinha, a parteira, a mãe solidária que pegou a todos nós, encontra-se ali com mamãe. Dando força, apoio, instrução. Acompanhando o parto. Cortou meu cordão umbilical.
Nasci naquele dia claro de céu azul e horizonte trêmulo. Meio-dia. Sol quente, tremendo à vista. Nasci cheirando a barro. Massapé. Sangue e vida. Achei o mundo feio. Senti dor e medo. Alarmei bem alto. Me consolei no peito de mamãe. Fui enrolado em cueiros de muitos usos. Bem surrados. Já utilizados por meus irmãos e irmãs. Tínhamos tudo em comum. Estavam tão limpinhos aqueles panos. Quentinhos. Engomados a ferro de brasa. Deitou-me numa rede pequenina, armada num cantinho do quarto de meus pais.
Não fui nenhuma surpresa. Lá em casa nascia um ou uma quase todo ano. No entanto, todos estavam felizes com minha chegada. Todos queriam me ver. A vizinhança não parava de entrar no quarto. Estava tão quente ali. Tempo abafado. Nossa, é a cara do cumpadi Toim. Mais feliz estava mamãe. Meu filho nasceu bem. Graças a Deus! 
Mamãe me quis.

21 setembro 2011

aquela música


quando aquela música toca
as paredes do quarto se contorcem
pulo a janela e monto na calda do vento

as asas invisíveis fazem voo rasante
e o corpo da vida 
se liquefaz no céu de minha boca

fecho os olhos
o som pungente da música
penetra meus poros, meus ossos

enquanto o corpo se  dissolve
procuro as partes de mim mesmo...

19 setembro 2011

dentro da gente

quando os olhos se avermelharam
e a febre lhe doía o corpo todo
sentiu medo com lágrimas

qual uma criança 
chorou alto

alto dentro de si 
"eu quero minha mãe"
era a única prece que conseguia fazer...


16 setembro 2011

armadilha

o vento triste e rasteiro
chegou como quem não quer nada
falsa modéstia
ele sempre quer
pois incorporou em mim
sem pedir licença
senti um frio nos ossos
outro sinal não tive
apenas o medo
alguns calafrios
e insônia na calada da noite
o vento nunca é imparcial
eu que fui ingênuo...

10 setembro 2011

desenho de nomes

da janela desenhava nuvens
e desenhava nomes também
com letrinhas-garranchos
alcançava o céu assim


o céu azul lá no alto
era um infinito tão profundo que doía na alma
lá dentro
bem no fundo


um dia teve de abandonar a imaginação
e por sina
teve de enfrentar a crueldade real da vida


o céu era tão largo
tão azul
tão intenso
mas a vida era tão pequena
se resumia àquilo ali
um quintalzinho


nos olhos grandes e da cor da dor
da cor da expressão de todas as lágrimas
estavam secos
tal seu ventre depois de dá à luz a tantos filhos


e no fim de tudo
apenas um caixãozinho no meio da pequena sala...


07 setembro 2011

jornal de monturo

ainda bem pequeno, nem lembro que idade tinha
lembro apenas que assim era
e lembrança de infância a gente nunca esquece
tempos atrás me disse um senhor de oitenta e lá vai mais anos, o querido frei pascoal,
que na velhice se volta a sonhar as lembranças desse tempo indelével...
bem, mas não estou velho ainda...
pois hoje me peguei a pensar de como li jornal pela primeira vez:
eu li jornal de monturo 
jornal muitos dias vencidos, até meses e anos passados
para mim não havia passado, tudo aquilo era presente
jornal de monturo eram aqueles que meu irmão levava enrolados nas pedras de gelo
uma caixa de isopor cheia de pedras de gelos para conservar o peixe
nós não tínhamos eletricidade...
eu me sentava na sombra de alguma moita ali no terreiro de casa
e soletrava as palavras
havia palavras bem difíceis, mas eu não tinha a pretensão de entender nada
eu queria apenas estar perto das palavras...

31 agosto 2011

o vento levando agosto

os ipês estão nus 
sua beleza  fugaz
foi levada pelo vento 
que hoje veio sem paz
e levou as últimas flores

ipês são amores

desta larga janela
vejo duas palmeiras 
as palmas de ambas se tocam
se acariciam
suas copas querem alcançar o céu

meu pensamento foge
longe
me transporto para o alto
lá no cume do edifício hospitalar 
um urubu agoura
o preto e o azul se mesclam

me torno andorinha e voo entre outras duas
bem alto
depois me despeno todo
caio  

o vento sopra
ele vai levando agosto...

26 agosto 2011

sal

a lágrima escorria feito um  pequenino regato
fez leves curvas
foi entrando discretamente no canto da boca
misturou-se à saliva
a dor era salgada...