a voz veio
serena
do fundo da alma
no olhar havia calma
seria a última cena...
a noite descia ao encontro da terra
bem naquela hora em que tudo pede colo
quando o dia seu expediente encerra
e o peito e os pés buscam o solo
lembra da criança prematura na incubadora
depois de nascer na rede
da mãe inocente e nova
distante dos cuidados medicais
a rima não vem
sabe lá o que é ter sede
quando se tem à frente o mar
o corpo franzino desequilibra o ritmo
a garganta pigarra a voz entalada
aos pobres basta Deus
só Deus basta
e certamente ele abomina
o sofrimento imposto...
os pingos de chuva lá fora
as águas de março na telha
o lençol limpo e cheiroso
manda o cansaço embora
o relâmpago rasga o céu
num átimo tudo avermelha
de repente um assombro
o trovão e o estrondo
os sem-tetos não ouvem
a música das telhas....
Queria que as ruas fossem coloridas
as pessoas fossem apreciadas mais que as máquinas
e a paz fosse mais do que uma palavra ou slogan
De novo, da janela do quarto, vejo jovens caídos na avenida Portugal
Ouço choro, buzinas.
E vejo sangue...
há dias que vem o relâmpago
o vento e o travão
tudo junto é tempestade
há dias que dentro da gente
o trovão é no coração
o relâmpago, no âmago
na face e nas mãos, emoção
há dias que a mesa precisa ser virada
os vendilhões expulsos
a palavra calada
depois
só o templo vivo basta...
pródigo coração
volta
ele nunca te esqueceu
e nem reclama tuas faltas
pródigo coração
volta
o nome dele é perdão
de longe ele te avista
corre ao teu encontro
e sem perguntas possessivas
te abraça, te enche de beijos
te veste com a roupa do amor
e manda fazer festa
o que estava perdido foi encontrado
isso basta...
um fio de água mole
discreto escorre
inocente corre
depois
de pedra em pedra
bate
bate e fura
pedra dura
com o tempo rei
abre vales
chora lágrimas...
a vida jorra
e nem sempre se constitui em rio tranquilo
a vida é rio
deseja desaguar no mar...
muitas casas do meu sertão são baixinhas
bem branquinhas à beira do caminho
dão a impressão de querer fugir do sol...
o calor do povo é mais do que coisa de pele, de poros
há um sol iluminado no coração
chão sagrado...
suavemente os dedos escorrem nas teclas
o piano estremece os ossos
e a alma voa feito gaivota à beira mar
as gotas de vida
os fragmentos da gente
entrelaçam-se
tudo flui
a essência é a mudança...