qual pilatos no credo
é como se sente
meio fora de contexto
sem presente
apenas passado
e sede de futuro
na cara estampado
um compêndio
nas linhas e rugas
e nas marcas de incêndio
e nas cinzas do pau torto
ou não seria mesmo o anjo torto
aquele do Poeta...
04 setembro 2007
31 agosto 2007
palavra II
Vejo-me de volta à biblioteca. Olho para as prateleiras. Os livros me remetem à imagem das lagartas em metamorfose no outão de casa.
No sertão, quando víamos algum casulo dependurado, dizíamos ser “lagarta encantada”.
Cada livro ali parece “encantado”. A letra parece envolta num casulo. Penso na voz como potência criadora, capaz de tirar a letra do estado de “encasulamento”. Faço uma imagem mental daquela ação vocal do mito da criação: "faça-se", e que por meio dela tudo passou a existir...
No sertão, quando víamos algum casulo dependurado, dizíamos ser “lagarta encantada”.
Cada livro ali parece “encantado”. A letra parece envolta num casulo. Penso na voz como potência criadora, capaz de tirar a letra do estado de “encasulamento”. Faço uma imagem mental daquela ação vocal do mito da criação: "faça-se", e que por meio dela tudo passou a existir...
27 agosto 2007
palavra I
Entro na biblioteca e contemplo os livros nas prateleiras. Enquanto os observo, o pensamento me transporta para uma cena da adolescência: estou no sertão. Sinto o cheiro de terra molhada pelas primeiras chuvas do ano. O barulho das gotas nas telhas anuncia que em breve, aquele quadro de natureza morta, dará lugar a uma paisagem viva. Em pouco tempo, ouço os coaxos dos sapos, que parece surgirem do nada, fazendo a festa nas poças e grotas. Em menos de três dias, do torrão antes seco e rachado, as sementes “desencantam” e brotam em tufos, espalhando o verde na caatinga. No cenário de ressurreição, a vida vibra e tudo respira renascimento. O ar cheira a fertilidade. Nas folhas novas das árvores surgem lagartas de muitos tamanhos e cores. Elas logo se dirigirão aos outões das casas, aos lugares protegidos da chuva e se transformarão em casulos, aguardando o tempo certo de se tornarem belas borboletas...
25 agosto 2007
marginal
segue mesmo no anônimato
vai pela rua ou pelo mato
tal cachorro vira-lata
gane baixinho a dor
dor de saudade e amor
tenta escarrar o catarro
engasgado no pescoço
mas dói o osso
osso duro de roer
cravado no ser
ser enquanto ser
angustiado pela finitude
ansiando plenitude...
segue noite adentro
em busca do sentido
na margem dos versos
versos livres, vivos
no terreno do reverso
lá onde não se é normal...
vai pela rua ou pelo mato
tal cachorro vira-lata
gane baixinho a dor
dor de saudade e amor
tenta escarrar o catarro
engasgado no pescoço
mas dói o osso
osso duro de roer
cravado no ser
ser enquanto ser
angustiado pela finitude
ansiando plenitude...
segue noite adentro
em busca do sentido
na margem dos versos
versos livres, vivos
no terreno do reverso
lá onde não se é normal...
23 agosto 2007
lá fora
... e aqui dentro
sem tempo
para espiar
ali pela janela...
então corro
e tento tocar
a tela do tempo...
sem tempo
para espiar
ali pela janela...
então corro
e tento tocar
a tela do tempo...
19 agosto 2007
suspiro
arranca o sentido
tira da goela
mergulha na noite
adentra o labirinto
noite sem lua
essa noite é você mesmo
arranca o sentido dela
dos poros sem suor
vazios de calor
se não há
inventa qualquer sentido
para suportar
todas as reticências...
tira da goela
mergulha na noite
adentra o labirinto
noite sem lua
essa noite é você mesmo
arranca o sentido dela
dos poros sem suor
vazios de calor
se não há
inventa qualquer sentido
para suportar
todas as reticências...
14 agosto 2007
dúvida
acha que sabe tudo
sabe nada não
cada página que se abre
é uma nova questão
quem pensa saber demais
vive de mera ilusão...
sabe nada não
cada página que se abre
é uma nova questão
quem pensa saber demais
vive de mera ilusão...
11 agosto 2007
fontes
lethe e mnemosyne
esquecimento e memória
esquecimento é a água da morte
bebê-la é adentrar o reino das sombras
memória é a fonte da vida
da imortalidade
quem beber a água de mnemosyne
transcende a condição mortal
não encontra barreira
entre a vida e a morte
é livre cá e lá
nas sombras e na luz...
esquecimento e memória
esquecimento é a água da morte
bebê-la é adentrar o reino das sombras
memória é a fonte da vida
da imortalidade
quem beber a água de mnemosyne
transcende a condição mortal
não encontra barreira
entre a vida e a morte
é livre cá e lá
nas sombras e na luz...
10 agosto 2007
nó
sem sobrenome
apelido em vez de nome
condenado à fome
antes de nascer
vive a padecer
em estado primata
pior que barata
nos ralos e esgotos...
mas não é bicho, é gente
isso ainda sente
embora diferente
dos limpos corpinhos
desfilando à sua frente...
agora
quer gritar
sua dignidade cobrar
porém não reclama
nesta hora
só queria uma cama
pra adormecer com prazer
e não mais acordar...
apelido em vez de nome
condenado à fome
antes de nascer
vive a padecer
em estado primata
pior que barata
nos ralos e esgotos...
mas não é bicho, é gente
isso ainda sente
embora diferente
dos limpos corpinhos
desfilando à sua frente...
agora
quer gritar
sua dignidade cobrar
porém não reclama
nesta hora
só queria uma cama
pra adormecer com prazer
e não mais acordar...
09 agosto 2007
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