12 setembro 2007

pingo no "i"

silêncio e cheiros
e folhas dançando
e o ritmo do vento...
e solidão e natureza
e plátanos em viço
e o ser sem certeza...
e o colorido da esperança
e a desilusão feito nó
e a tempestade e a bonança...
e o desejo mais secreto
e a teoria literária
e o carinho discreto...
e a hora triste
e o olhar que pede
e a boca na língua...
e o balanço da rede
e a flor da pele
e a corrente filosófica...
e o tempo em fuga
e a abelha que pica
e a distração tentadora...
e as lágrimas e os sorrisos
e os tantos "iis"
infindo pingo...
infindo "i"...

10 setembro 2007

memória

ensina a sabedoria popular:
recordar é viver
por trás dessa frase
há muito o que aprender
tem a ver com memória
nosso jeito de ser...

daí nossos álbuns
e datas festivas
registro da história
pessoal e coletiva
buscamos sentido
nas narrativas...

memória, memória, memória
invo-te em jaculatória...

09 setembro 2007

obstrução

conhecimento rima com alimento
uma pena que ambos sejam mal distribuidos
dói saber que a fome e a ignorância
ainda matem tantas vidas...

04 setembro 2007

bagatela

qual pilatos no credo
é como se sente
meio fora de contexto
sem presente
apenas passado
e sede de futuro
na cara estampado
um compêndio
nas linhas e rugas
e nas marcas de incêndio
e nas cinzas do pau torto
ou não seria mesmo o anjo torto
aquele do Poeta...

31 agosto 2007

palavra II

Vejo-me de volta à biblioteca. Olho para as prateleiras. Os livros me remetem à imagem das lagartas em metamorfose no outão de casa.
No sertão, quando víamos algum casulo dependurado, dizíamos ser “lagarta encantada”.
Cada livro ali parece “encantado”. A letra parece envolta num casulo. Penso na voz como potência criadora, capaz de tirar a letra do estado de “encasulamento”. Faço uma imagem mental daquela ação vocal do mito da criação: "faça-se", e que por meio dela tudo passou a existir...

27 agosto 2007

palavra I

Entro na biblioteca e contemplo os livros nas prateleiras. Enquanto os observo, o pensamento me transporta para uma cena da adolescência: estou no sertão. Sinto o cheiro de terra molhada pelas primeiras chuvas do ano. O barulho das gotas nas telhas anuncia que em breve, aquele quadro de natureza morta, dará lugar a uma paisagem viva. Em pouco tempo, ouço os coaxos dos sapos, que parece surgirem do nada, fazendo a festa nas poças e grotas. Em menos de três dias, do torrão antes seco e rachado, as sementes “desencantam” e brotam em tufos, espalhando o verde na caatinga. No cenário de ressurreição, a vida vibra e tudo respira renascimento. O ar cheira a fertilidade. Nas folhas novas das árvores surgem lagartas de muitos tamanhos e cores. Elas logo se dirigirão aos outões das casas, aos lugares protegidos da chuva e se transformarão em casulos, aguardando o tempo certo de se tornarem belas borboletas...

25 agosto 2007

marginal

segue mesmo no anônimato
vai pela rua ou pelo mato
tal cachorro vira-lata
gane baixinho a dor
dor de saudade e amor
tenta escarrar o catarro
engasgado no pescoço
mas dói o osso
osso duro de roer
cravado no ser
ser enquanto ser
angustiado pela finitude
ansiando plenitude...
segue noite adentro
em busca do sentido
na margem dos versos
versos livres, vivos
no terreno do reverso
lá onde não se é normal...

23 agosto 2007

lá fora

... e aqui dentro
sem tempo
para espiar
ali pela janela...
então corro
e tento tocar
a tela do tempo...

19 agosto 2007

suspiro

arranca o sentido
tira da goela
mergulha na noite
adentra o labirinto
noite sem lua
essa noite é você mesmo
arranca o sentido dela
dos poros sem suor
vazios de calor
se não há
inventa qualquer sentido
para suportar
todas as reticências...

14 agosto 2007

dúvida

acha que sabe tudo
sabe nada não
cada página que se abre
é uma nova questão
quem pensa saber demais
vive de mera ilusão...