silêncio e cheiros e folhas dançando e o ritmo do vento... e solidão e natureza e plátanos em viço e o ser sem certeza... e o colorido da esperança e a desilusão feito nó e a tempestade e a bonança... e o desejo mais secreto e a teoria literária e o carinho discreto... e a hora triste e o olhar que pede e a boca na língua... e o balanço da rede e a flor da pele e a corrente filosófica... e o tempo em fuga e a abelha que pica e a distração tentadora... e as lágrimas e os sorrisos e os tantos "iis" infindo pingo... infindo "i"...
ensina a sabedoria popular: recordar é viver por trás dessa frase há muito o que aprender tem a ver com memória nosso jeito de ser... daí nossos álbuns e datas festivas registro da história pessoal e coletiva buscamos sentido nas narrativas... memória, memória, memória invo-te em jaculatória...
qual pilatos no credo é como se sente meio fora de contexto sem presente apenas passado e sede de futuro na cara estampado um compêndio nas linhas e rugas e nas marcas de incêndio e nas cinzas do pau torto ou não seria mesmo o anjo torto aquele do Poeta...
Vejo-me de volta à biblioteca. Olho para as prateleiras. Os livros me remetem à imagem das lagartas em metamorfose no outão de casa. No sertão, quando víamos algum casulo dependurado, dizíamos ser “lagarta encantada”. Cada livro ali parece “encantado”. A letra parece envolta num casulo. Penso na voz como potência criadora, capaz de tirar a letra do estado de “encasulamento”. Faço uma imagem mental daquela ação vocal do mito da criação: "faça-se", e que por meio dela tudo passou a existir...
Entro na biblioteca e contemplo os livros nas prateleiras. Enquanto os observo, o pensamento me transporta para uma cena da adolescência: estou no sertão. Sinto o cheiro de terra molhada pelas primeiras chuvas do ano. O barulho das gotas nas telhas anuncia que em breve, aquele quadro de natureza morta, dará lugar a uma paisagem viva. Em pouco tempo, ouço os coaxos dos sapos, que parece surgirem do nada, fazendo a festa nas poças e grotas. Em menos de três dias, do torrão antes seco e rachado, as sementes “desencantam” e brotam em tufos, espalhando o verde na caatinga. No cenário de ressurreição, a vida vibra e tudo respira renascimento. O ar cheira a fertilidade. Nas folhas novas das árvores surgem lagartas de muitos tamanhos e cores. Elas logo se dirigirão aos outões das casas, aos lugares protegidos da chuva e se transformarão em casulos, aguardando o tempo certo de se tornarem belas borboletas...
segue mesmo no anônimato vai pela rua ou pelo mato tal cachorro vira-lata gane baixinho a dor dor de saudade e amor tenta escarrar o catarro engasgado no pescoço mas dói o osso osso duro de roer cravado no ser ser enquanto ser angustiado pela finitude ansiando plenitude... segue noite adentro em busca do sentido na margem dos versos versos livres, vivos no terreno do reverso lá onde não se é normal...
arranca o sentido tira da goela mergulha na noite adentra o labirinto noite sem lua essa noite é você mesmo arranca o sentido dela dos poros sem suor vazios de calor se não há inventa qualquer sentido para suportar todas as reticências...