17 setembro 2007

antes da noite


a hora de um sentimento
de nome saudade
aquele instante, pede colo
e o corpo quer asas...

o pensamento vai e vem
em direção de alguém
alguém que deixou rastros
cheiros, lembranças..

e depois ralos, lágrimas
nem houve adeus...

15 setembro 2007

cazuza

" ... estou grávido mais não posso esperar
o tempo não pára e agente ainda passa correndo...
se pudesse, guardava tudo numa garrafa, e bebia de uma vez
penso no que vai ficar de mim
eu... só sei insistir."

vasto

no horizonte um ímã
puxa, puxa, puxa...
por um instante
a vida se eterniza

num momento de beleza
e prazer...

14 setembro 2007

lá onde for



qual flor de ipê
efêmera
e a vontade de ser
ser além do ente
ser simplesmente
e às vezes nem ser
tão decente
apenas ser
e nada mais
apenas paz...

12 setembro 2007

pingo no "i"

silêncio e cheiros
e folhas dançando
e o ritmo do vento...
e solidão e natureza
e plátanos em viço
e o ser sem certeza...
e o colorido da esperança
e a desilusão feito nó
e a tempestade e a bonança...
e o desejo mais secreto
e a teoria literária
e o carinho discreto...
e a hora triste
e o olhar que pede
e a boca na língua...
e o balanço da rede
e a flor da pele
e a corrente filosófica...
e o tempo em fuga
e a abelha que pica
e a distração tentadora...
e as lágrimas e os sorrisos
e os tantos "iis"
infindo pingo...
infindo "i"...

10 setembro 2007

memória

ensina a sabedoria popular:
recordar é viver
por trás dessa frase
há muito o que aprender
tem a ver com memória
nosso jeito de ser...

daí nossos álbuns
e datas festivas
registro da história
pessoal e coletiva
buscamos sentido
nas narrativas...

memória, memória, memória
invo-te em jaculatória...

09 setembro 2007

obstrução

conhecimento rima com alimento
uma pena que ambos sejam mal distribuidos
dói saber que a fome e a ignorância
ainda matem tantas vidas...

04 setembro 2007

bagatela

qual pilatos no credo
é como se sente
meio fora de contexto
sem presente
apenas passado
e sede de futuro
na cara estampado
um compêndio
nas linhas e rugas
e nas marcas de incêndio
e nas cinzas do pau torto
ou não seria mesmo o anjo torto
aquele do Poeta...

31 agosto 2007

palavra II

Vejo-me de volta à biblioteca. Olho para as prateleiras. Os livros me remetem à imagem das lagartas em metamorfose no outão de casa.
No sertão, quando víamos algum casulo dependurado, dizíamos ser “lagarta encantada”.
Cada livro ali parece “encantado”. A letra parece envolta num casulo. Penso na voz como potência criadora, capaz de tirar a letra do estado de “encasulamento”. Faço uma imagem mental daquela ação vocal do mito da criação: "faça-se", e que por meio dela tudo passou a existir...

27 agosto 2007

palavra I

Entro na biblioteca e contemplo os livros nas prateleiras. Enquanto os observo, o pensamento me transporta para uma cena da adolescência: estou no sertão. Sinto o cheiro de terra molhada pelas primeiras chuvas do ano. O barulho das gotas nas telhas anuncia que em breve, aquele quadro de natureza morta, dará lugar a uma paisagem viva. Em pouco tempo, ouço os coaxos dos sapos, que parece surgirem do nada, fazendo a festa nas poças e grotas. Em menos de três dias, do torrão antes seco e rachado, as sementes “desencantam” e brotam em tufos, espalhando o verde na caatinga. No cenário de ressurreição, a vida vibra e tudo respira renascimento. O ar cheira a fertilidade. Nas folhas novas das árvores surgem lagartas de muitos tamanhos e cores. Elas logo se dirigirão aos outões das casas, aos lugares protegidos da chuva e se transformarão em casulos, aguardando o tempo certo de se tornarem belas borboletas...