21 fevereiro 2012

carnaval

o suave silêncio
paradoxo carnaval
no lume do mármore
velas e castiçal
a brisa e as cigarras
acertam o dial
nada mal, nada mal..

20 fevereiro 2012

plenitude

quando quisera o ombro
tivera o assombro
tombando encontrara a solidão
do encontro de duas solidões nascera a amizade 
então a vida achou graça 
e o verbo não mais se confundiu...

14 fevereiro 2012

discrepância


da janela vejo a lagoa
bela e sem água boa
lume frio, afinado
progresso desenfreado

transporto-me às margens
os pássaros cantam mensagens
e o silêncio sepulcral
das mansões do capital
camufla o odor sem nome
fecha os olhos pra fome
do homem que está na beira
sem eira lançando o anzol
 usufrui o mesmo sol

sobre as águas uma garça
esvoaça alvamente
logo ao lado um urubu
em seu vôo rasante
varejando algo podre...

23 janeiro 2012

artigo A

a nódoa invisível
somente eu a toco
a sinto
não imprimível
ela fica lá onde somente eu adentro
a lágrima presa e densa
a vela sem mesa
a folha de papel acesa
e a tela branca faminta...


28 novembro 2011

barco

se aqui choro ou rio
se grito ou silencio
ou me faço tagarela
se contemplo da janela
o infinito fora de mim
é que digo não e sim
misturo tudo sem pureza
me deságuo na lâmina fria
espelho meu em correnteza
não sou científico, sou letra viva
texto anônimo, sem paga autoral
sou a penitência a espera da absolvição
sou verso livre, noutra preso nalguma rima
rica ou pobre
tateio na extinção
nos olhos, paixão
sentimento no coração
se naufragar a barca da salvação
há de me resgatar...


19 novembro 2011

rio

há necessidade de ouvir
o que não é dito
 há olhares e expressões límpidas
 buscando o escondido
jovens ou velhos querendo água de beber
existência que se escorre
rio do viver...

17 novembro 2011

em três tempos

o ser e o gosto do céu na boca
alto e amplo em sua degustabilidade
ambíguo ser mistura-se ao inferno
pigarro, garganta roca
complexo e plural
é purgatório ou vontade de amor...

13 novembro 2011

além do tempo

ouviu o barulho na porta
talvez o vento, ninguém 
o tic-tac hora morta
trazia saudade de alguém


no peito sentimento deserto
lá fora a avenida acordou
aqui dentro sou eu que desperto
do sono ainda zonzo estou


o espelho é imagem torta
nos olhos pureza de infância
na face a idade riscou
rugas, caminhos, distância


a imagem não sou eu, falou
voz vinda de fora
voz rouca, voz morta


a água lavou
abri a cortina
dia azul acordou
sai, sem medo da sina...

03 novembro 2011

tecido

sabe do gosto salobro
de se dar em dobro
de ser feito de bobo
sabe do prazo cumprido
do tempo perdido
e mais do que isso
sabe do sentido
do choro engolido
da saliva retida
do nó na garganta
da hora manca
e do tempo perdido
sabe de algumas coisas
e desconfia de tantas
caras fingidas de santas
sabe do rio
deflui
nas curvas
da vida
em fios...

26 outubro 2011

ausência

quando você partiu
a noite em mim caiu
fiquei sem chão


a sombra densa
desceu sem fios
e a ofensa muda
me deu calafrios


nada nas mãos
eu todo vazio


na garganta o nó
e no peito dó
do sol sem adeus


então abracei os dedos meus
trinquei os dentes nos seus
e me fiz de ausente


de lá para cá
tenho noites looongas
me falta o sono...