11 abril 2012

ressurreição

a música ecoava longe
no jornal da manhã
sinais de morte ainda havia
no interno a memória viva levantava voo
bem na hora em que um cãozinho de rua latia
mais tarde 
o sol amarelado e triste caía
sentada uma senhora chorava
o marido partira
na janela um gato triste miava
bem longe à vista
uma mulher feliz corria com os cabelos soltos
a voz meio rouca cantarolava:
o amor não morreu
o amor não morre
não morre...

06 abril 2012

sexta-feira da paixão

o piano agudo embala a Paixão
silêncio,silêncio, silêncio
lá fora o pombo arrulha
da janela a pampulha
e o peito borbulha manso
coração, coração, coração
então pego carona na voz sem letra
do alto o sublime se derrama
e o universo todo geme
em dores de parto
mistério, mistério, mistério...

03 abril 2012

o que importa

reservou o que tinha de melhor
com o perfume mais caro
ungiu os pés do amado
aos seus pés se lançou
e com seus cabelos os enxugou

o aroma preencheu os espaços
o amor tudo completa
só o amor importa...

01 abril 2012

tarde de domingo

o toque na tecla
e o piano agudo penetra a alma
nesta tarde calma
há um fio que nada mescla
olho a mão, a palma
vejo um M
rio, canoa sem leme
a vida escorre...

26 março 2012

vigia

o vigia da noite
espera ansioso a aurora
e quando a aurora desponta
ele deseja fechar os olhos
adormecer na luz... 

23 março 2012

quando termina é então que começa


a voz veio serena
do fundo da alma
no olhar havia calma
seria a última cena... 

18 março 2012

longa noite

a noite descia ao encontro da terra
bem naquela hora em que tudo pede colo
quando o dia seu expediente encerra
e o peito e os pés buscam o solo

lembra da criança prematura na incubadora
depois de nascer na rede
da mãe inocente e nova
distante dos cuidados medicais

a rima não vem
sabe lá o que é ter sede
quando se tem à frente o mar

o corpo franzino desequilibra o ritmo
a garganta pigarra a voz entalada

aos pobres basta Deus
só Deus basta
e certamente ele abomina
o sofrimento imposto...
 

17 março 2012

pingos

os pingos de chuva lá fora
as águas de março na telha
o lençol limpo e cheiroso
manda o cansaço embora
o relâmpago rasga o céu
num átimo tudo avermelha

de repente um assombro
o trovão e o estrondo
os sem-tetos não ouvem 
a música das telhas.... 

14 março 2012

da janela

Queria que as ruas fossem coloridas
as pessoas fossem apreciadas mais que as máquinas
e a paz fosse mais do que uma palavra ou slogan
De novo, da janela do quarto, vejo jovens caídos na avenida Portugal
Ouço choro, buzinas.
E vejo sangue...

12 março 2012

templo

há dias que vem o relâmpago
o vento e o travão
tudo junto é tempestade

há dias que dentro da gente
o trovão é no coração
o relâmpago, no âmago
na face e nas mãos, emoção

há dias que a mesa precisa ser virada
os vendilhões expulsos
a palavra calada

depois
só o templo vivo basta...