31 agosto 2011

o vento levando agosto

os ipês estão nus 
sua beleza  fugaz
foi levada pelo vento 
que hoje veio sem paz
e levou as últimas flores

ipês são amores

desta larga janela
vejo duas palmeiras 
as palmas de ambas se tocam
se acariciam
suas copas querem alcançar o céu

meu pensamento foge
longe
me transporto para o alto
lá no cume do edifício hospitalar 
um urubu agoura
o preto e o azul se mesclam

me torno andorinha e voo entre outras duas
bem alto
depois me despeno todo
caio  

o vento sopra
ele vai levando agosto...

26 agosto 2011

sal

a lágrima escorria feito um  pequenino regato
fez leves curvas
foi entrando discretamente no canto da boca
misturou-se à saliva
a dor era salgada...

21 agosto 2011

juventudes


19 agosto 2011

silêncio

no princípio era o silêncio 
e do silêncio nasceu a palavra
e tudo o que existe...

08 agosto 2011

entre a ausência e a plenitude

como invocar tua presença
se estás em toda parte
e preenches todos os espaços de minha existência?

06 agosto 2011

cadeado

há um espaço em que ninguém pode entrar
o lugar todo meu, somente meu
pelas aparências ninguém me conhece
a superficialidade é superfluidade
é apenas superfície


lá no profundo
este sempre menino chora, esperneia
se apaixona e sofre
nem o lume frio do espelho
penetra o meu poço fundo...

28 julho 2011

imagem no escuro

essa inquietude vigilante
a face no travesseiro
e lá do profundo da alma um poema nascendo
possessão, entidade poética
construo uma aldeia imaginária...

26 julho 2011

sem rodeios

se às vezes sou trágico
se exagero
se faço o mal que não quero
se choro na frente da tela
se gosto de olhar da janela
se torpedo poemas
se não resolvo os dilemas
se insisto em querer
o que não deveria ter
é que sou feito do avesso
contramão de mim mesmo
sem data, sem vitrina, nem preço
sou sem começo e o meu fim não conheço...

25 julho 2011

pedaços

aquela saudade do que nunca existiu
dói tanto, essa dor sem nome
lá no fundo a voz sem fala azucrina a alma


o domingo some entre o cinza
e eu sinto o peito em vácuo
bastaria um "oi"
ou uma migalhinha de ternura
seus abraços


ponho a mão no peito
fecho os olhos lentamente
escorrem lágrimas mornas e salobras
eu mesmo me escorro, me liquefaço
me viro em pedaços...

17 julho 2011

esfinge

vomitou dormindo
e nunca mais acordou
talvez haja morte sem dor


nem se mexeu


a sujeira interna escorreu
da boca ao ventre
descendo ao púbis


talvez tenha expelido
o gosto amargo do não-ser
ou mesmo resquícios de algum amor doído


as marcas ficaram na brancura do travesseiro
e na alvura do lençol
o dia veio e trouxe o sol...