palavras grávidas...
Dos sonhos e gritos de minha juventude...
04 abril 2011
invenção
não me cobre coerência
meu verso não é conceito
digo o que sinto no peito
sem grito na consciência
invento a realidade
adentro outra existência
dou espaço à reticência
meu time é a simplicidade
não me cobre coerência
...
20 março 2011
lunar
quando colei a a face no lume frio
e afiado da lua
senti o beijo que nunca tive
minha alma ficou nua
de repente, como num passe de mágica
fui transportado ao não-lugar, das minhas fantasias reais
pisei o solo de mim mesmo
e arrastado pelos meus desejos
entreguei-me sem resistência
...
11 março 2011
exorcismo
se dentro não fosse a fornalha
mas a fornalha é nada
pior foram seus dentes desarticulando a linguagem
e seu dedo em riste ditando ordens confusas
seu mundo é difuso
minha alma estremece
ante seu olhar funesto
às vezes a raiva faísca
mas depois me acalmo
respiro fundo, fico mudo
abro a janela de mim
e faço uma prece ao vento
aí tudo sopra, dissipa-se
amém...
09 março 2011
cinzas
engoli o gosto das cinzas
deixei que os farelos queimados
e curtidos pelo fogo
escorregassem garganta abaixo
arranhando, arranhando, arranhando
cinzas de mim, fogo de mim e de você
fecho os olhos
e na escuridão de meu poço
vejo seus olhos brilhando
a isso eu chamo graça
graça divina que só sabe amar
e nunca cansa de perdoar
eu que sou cinza e pó...
24 fevereiro 2011
água
água no copo, da fonte
tirada do pote
esperando a sede
água fria, tão boa
doce na boca, na língua
descendo, garganta
rio da gente
água na pele
arrepia, pele nua
poros saciados
riachos da gente
água profunda
marés, força da lua
ondas sagradas, salgadas
três quartos da terra
três quartos de mim
oceano da gente...
23 fevereiro 2011
crepuscular
feito Caim, em fuga
procurando um lugar no mundo
na testa um sinal
sempre diferente, nunca normal
rejeitado, amado em segundo plano
conta o tempo, ano após ano
nuvem sem água
levada pelo vento da angustia, da mágoa
árvore de outono
noturno...
20 fevereiro 2011
ausência
o poema não tem hora marcada pra chegar
e vai embora num estalo
fico aqui na sala
de mim
e pela janela
vejo o céu acenar
o poema não veio
domingo é assim
ele não vem
talvez venha no meio da noite...
18 fevereiro 2011
desarticulação
nada no nada
água, lodaçal
pescoço
veias, sangue
osso
voa sem asas
carvão e brasas
meio tonto
nunca pronto
em pranto
zonzo da noite
anjo torto
vertigem
morto...
17 fevereiro 2011
desejo
quero pisar a terra
descalço e sem medo
deitar no chão
balbuciar meu segredo
sentir a brisa
seu hálito
quero pular nos galhos
da grande árvore
acariciar a manja
lambuzar-me todo
engolir o suco
quero a vida
seu gosto...
16 fevereiro 2011
luta
as formigas subiam pernas acima
o sol derretia de cima abaixo
os poros expeliam suor
líquido que era sangue
sugado pelo opressor
oh, senhor!
o pelo da palha a pele ardia
a fome as tripas retorcia
humano feito palha e lama
quando papai conta
bato no peito
sinto o luto
a alma dói
alimento minha luta
contra as vacas de basã
alimento a resistência
contra os touros de basã...
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